terça-feira, 19 de maio de 2009



Ocupação Dandarta. Uma experiência fotográfica

João Evangelista Rodrigues

O ato de fotografar é, em si, invencível desafio. O assunto sempre escapa diante de condições as mais adversas.Acrescenta-se a isto a condição humana do fotógrafo, sua história de vida, sua visão de mundo, seus medos, suas ideologias e neuroses de toda a ordem. E a fotografia? Esta vem? Surge? Constrói-se?
Grande desafio é penetrar em mundos desconhecidos ou que , de alguma forma, não fazem parte do universo do fotógrafo. De sua vivência.De sua classe social.Mundos paralelos, por assim dizer. Como chegar até o objeto de desejo da câmara? Como e quando disparar o obturador , uma espécie de rifle mortal, ante o qual a maioria das pessoas se curvam, por medo, submissão, curiosidade ou vaidade.Como estabelecer um relacionamento humano e cidadão com as pessoas que integram a cena, o cenário, o quadro da imagem: Por que escolhemos esta e não aquela personagem, que muitas vezes, manifesta seu desejo de ser fotografada, fuzilada, com um olhar de sedução ou de súplica?
Estas são apenas algumas das centenas de perguntas que envolvem o ato de fotografar e, para as quais, nunca tenho resposta satisfatória ,pronta e acabada. Neste campo sinto-me sempre no começo a cada experiência.

Ontem, dia 16 de maio, fotografei durante umas duas horas a Ocupação Dandara, no Bairro Céu Azul, em Belo Horizonte, para cobrir uma apresentação de Violeiros , em solidariedade ao movimento. Participaram da apresentação Pereira da Viola, Wilson Dias, Joacir Ornelas , Dimas, Gustavo Guimarães e militantes da Ocupação Dandara.Representantes de vários segmentos socais, como estudantes, apoiaram a manifestação cultural. Este grupo de violeiros, do qual faço parte como compositor, defende a idéia de que a viola deve estar a serviço das causas sóciais e na defesa da cidadania e da sustentabilidde.

Na verdade, fotografei pouco, levando-se em conta meu hábito de fazer muitas fotos em cada saída, para editar ...sempre tive a fotografia na conta das caçadas, das possibilidades, do inalcançável. Daí que faço o máximo de imagens que posso, para escolher, sabe-se como, com que critérios e dúvida, quais?
Enquanto mergulhava naquele mar escuro de barracas, cobertas de lonas pretas, meu pensamento não parava de fervilhar. Caminhar naquelas ruas de papelão e casas sem nada dentro, algumas sem teto, me pareceu caminhar por cenários de ficção, por labirintos imaginários. Não foi medo nem preconceito o que senti.Foi raiva e vergonha de testemunhar esta incômoda presença, de saber que ela faz parte de nossa arquitetura.Ali, bem ao lado de um dos bairros mais charmosos e valorizados da Capital. E, o que mais me chamou a atenção, na volta de meu trabalho foi a certeza de que todos os moradores daquelas mansões e freqüentadores dos restaurantes chiques da região, pareciam alheios a tudo e desfrutavam solenemente as delícias de sua vidinha confortável, nos limites dos valores burgueses.Tranqüilos com sua consciência. Com seus deveres de cidadãos plenamente em ordem. Pelo menos do ponto de vista deles, claro.
Sei que, como fotógrafo, neste curto espaço de tempo, não consegui chegar nem na beira desta realidade. Sequer toquei sua superfície. Caminhei, conversei, cliquei. Recebi belos sorriso de senhores e senhoras idosas, de crianças e e de jovens que ali estão , acampados , de plantão, à espera da sempre adiada solução da lei e da justiça.

Ate dançar, eu dancei, embora este não seja meu forte(rsrs), com uma senhora do acampamento. Fui preso e libertado por uma garota que fazia deste jogo uma forma de obter recursos para os acampados. Depois de preso , alguém paga uma pequena prenda de $R0,50 (cinqüenta centavos) , uma espécie de fiança pelo crime que você não cometeu (rss).Pronto.Você está novamente livre, para ir e vir.Pra desfrutar dos seus direitos de cidadão e dos “confortos e prazeres”propiciados pelo insaciável sistema neo-liberal.Moradia, saúde, educação, alimentação, transporte, cultura...Não é barato?Não é um barato?
Bem, voltando ao ato fotográfico, enquanto me empenhava a captar algumas imagens significativas ao meu propósito: apoiar o movimento Dandara – aviões , verdadeiras mansões luminosas , cortavam o céu de Belo Horizonte, por cima do Bairro da Pampulha.
Cá embaixo, éramos todos um bolinho de gente, pequenas formiguinhas carregadas de grandes sonhos e desejos...os tripulantes e passageiros daquelas espaçonaves, ansiosos como deveriam estar para pôr os pés na terra e voltar para o aconchego de seus lares, nem de cima, nem de longe, deram conga do que estava se passando no acampamento Dandara.
E o fotógrafo, bem, este aprendeu mais algumas importantes lições sobre a vida e sobre o ato de fotografar. Entre as luzes dos aviões e a tristeza de uma escuridão sem água ( a Copasa mandou cortar a água do acampamento) , o fotógrafo optou pela segunda opção.Abismado, como sempre deve ficar todo fotógrafo diante das injustiças históricas, das muitas realidades deste país, chamado Brasil;

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