quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

exorcizo pela escrita
no útero da paisagem
o que de mim
em mim mesmo ultrapassa
a parede da fala
o malefício do poema

prefiro ser vasto em sossego
sem saliência
liso de gravuras
mais que própria pedra de giz

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009


nada sei sobre o rosto de meu avô
se seus olhos eram negros ou azuis
nenhuma palavra de sua boca
nem um sorriso

nada me faria antever seu vulto
na penumbra
não fosse seu nome
minha única herança
alguns objetos já desaparecidos
dele me dizem
pendurados na parede invisível da sala
resistem ao tempo da provação
selam de silencio
a genealogia do poema
sem memória

nada sei sobre o rosto de meu avô

nenhum poema
é uma ilha
rodeada por palavras frias

Jão,Hoje, me vi pensando como seria viver em um país de leitores literários. Pode ser apenas um sonho, mas estaríamos em um lugar em que a tolerância seria melhor exercida. Praticar a tolerância é abrigar, com respeito, as divergências, atitude só viável quando estamos em liberdade. Desconfio que, com tolerância, conviver com as diferenças torna-se em encantamento. A escrita literária se configura quando o escritor rompe com o cotidiano da linguagem e deixa vir à tona toda sua diferença – e sem preconceitos. São antigas as questões que nos afligem: é o medo da morte, do abandono, da perda, do desencontro, da solidão, desejo de amar e ser amado. E, nas pausas estabelecidas entre essas nosssas faltas, carregamos grande vocação para a felicidade. O texto literário não nasce desacompanhado destes incômodos que suportamos vida afora. Mas temos o desejo de tratá-los com a elegância que a dignidade da consciência nos confere.A leitura literária, a mim me parece, promove em nós um desejo delicado de ver democratizada a razão. Passamos a escutar e compreender que o singular de cada um – homens e mulheres – é que determina sua forma de relação. Todo sujeito guarda bem dentro de si um outro mundo possível. Pela leitura literária esse anseio ganha corpo. É com esse universo secreto que a palavra literária quer travar a sua conversa. O texto literário nos chega sempre vestido de novas vestes para inaugurar este diálogo, e, ainda que sobre truncadas escolhas, também com muitas aberturas para diversas reflexões. E tudo a literatura realiza, de maneira intransferível, e segundo a experiência pessoal de cada leitor. Isto se faz claro quando diante de um texto nos confidenciamos: "ele falou antes de mim", ou "ele adivinhou o que eu queria dizer".João, o texto literário não ignora a metáfora. Reconhece sua força e possibilidade de acolher as diferenças. As metáforas tanto velam o que o autor tem a dizer como revelam os leitores diante de si mesmo. Duas faces tem, pois, a palavra literária e são elas que permitem ao leitor uma escolha. No texto literário autor e leitor se somam e uma terceira obra, que jamais será editada, se manifesta. A literatura, por dar a voz ao leitor, concorre para a sua autonomia. Outorga-lhe o direito de escolher o seu próprio destino. Por ser assim, João, a leitura literária cria uma relação de delicadeza entre homens e mulheres.Uma sociedade delicada luta pela igualdade dos direitos, repudia as injustiças, despreza os privilégios, rejeita a corrupção, confirma a liberdade como um direito que nascemos com ele. Para tanto, a literatura propõe novos discernimentos, opções mais críticas, alternativas criativas e confia no nosso poder de reinvenção. Pela leitura conferimos que a criatividade é inerente a todos nós. Pela leitura literária nos descobrimos capazes também de sonhar com outras realidades. Daí, compreender, com lucidez, que a metáfora, tão recorrente nos textos literários, é também uma figura política.Quando pensamos, João, em um Brasil Literário é por reconhecer o poder da literatura e sua função sensibilizadora e alteradora. Mas é preciso tomar cuidados. Numa sociedade consumista e sedutora, muitos são leitores para consumo externo. Lêem para garantir o poder, fazem da leitura um objeto de sedução. É preciso pensar o Brasil Literário com aquele leitor capaz de abrir-se para que a palavra literária se torne encarnada e que passe primeiro pelo consumo interno para, só depois, tornar-se ação.João, o Brasil Literário pode, em princípio, parecer uma utopia, mas por que não buscar realizá-la? Com meu abraço, sempre, Bartolomeu

Prezado Bartolomeu, li sua carta de um só fôlego. Nela reconheci o amigo dileto, o escritor delicado e cuidadoso e, em fusão vivenciada, o cidadão atento aos problemas e esperanças de um país admirável e povoado de contradições. Nada mais justo e oportuno um “movimento por um Brasil literário” nos moldes propostos em sua amável carta. Nada mais necessário aos escritores, aos leitores que escrevem, aos intelectuais de nosso tempo ( e, hoje, mais do que nunca, de todos os lugares) essa retomada de c consciência , em uma perspectiva crítica , mas humilde, da importância da literatura e da leitura no processo de construção/reconstrução/reinvenção deste Brasil que amamos e, por isto mesmos, questionamos.
Indispensável dizer sobre o caráter sincero e brilhante de seus conceitos e análises sobe o texto literário. A idéia da metáfora como força política ( não apenas como figura de linguagem, como adorno ou subterfúgio) é fundamental ao ofício, sacro-ofício ou sacrificio literário. Mais que uma carta em defesa da Literatura procurei entender suas belas palavras como um alerta aos escritores, sejam os neófitos, seja os veteranos, consagrados, reconhecidos ou anônimos...a todos que labutam diariamente com a palavra e delas se alimentam,,mais espiritual do que materialmente. Alerta, no sentido de que todos devemos
caminhar em direção à solidariedade, à comunhão e à comunicação, sem cair na armadilha da globalização, no fetichismo da tecnologia e no isolamento egoísta e consumista propagado pelo neo-libralismo.
Desculpe-me se não entendi o que escreveu como devia, mas como leitor, limitado sob muitos aspectos, não posso ir além do que sou capaz rss..
Bartolomeu, li e repassei sua carta para compartilhar suas iéias e ideais com pessoas que sei interessadas e Literatura/leitura e com os destinos e desatinos brasileiros.Confesso que ,desde que tive a honra de trabalhar sob sua orientação na Fundação Clovis Salgado –Palácio das Artes, quando passei a conheê-lo de mais perto, tenho procurado aprender com cada linha que você escreve. É um privilégio ter amigos de seu porte e humildade.
De minha parte, coloco-me à sua disposição para o que eu puder contribuir ,mais diretamente para que este movimento ganhe força e seja vitorioso.
Carinhosamente,
João

de pássaro
e tigre
de cisne
e arco íris
o poema se nulti faz
no ar
desaparece

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009



Reflexão

há mais de dois mil anos
o Natal se repete
repleto de luzes e enganos
a mesma cena diária
a mesma fila de indigntes
a mesma festa literária
dita de modos diferentes

debaixo de árvores coloridas
repousam gordos mendigos
objetos de vidro
amigos incultos
inimigos declarados
senhores falidos
senhoras faladas
mulheres de luto
cauxas e latas
anjos de pelúcia
filhos descontentes
sonhos perdidos
livros não lidos
fotos indecentes
o planeta ferido
animais doentes
ovelhas e burros
lobos e serpentes

os dias se evaporam
vazios
mortos
violentos
tudo em tudo se reflete
tudo se embrulha
de confeitos e confetes
a estampa de luxo
o estampido do buxo
o burrinho de argila
o menino Jesus
seu pai velhinho
sua mãe tranqüila
com o mesmo papel de presente

um moleque de rua nasce a meia noite
sob o acoite do pai
encharcado de aguardente
sob os olhos da estrela guia
o galo eletrônico
entoa hinos natalinos
com rock sinos pagodes e axés
a chuva cai impenitente
Deus chora
o sino toca
o carro passa
o boi passa
o tempo avisa
o trenó voa
a sirene apita
todo ano se repete o sacrifico divino
indefinidamente

a vida inútil nuvem
cego ritual de sempre
segue seu calendário urgente

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


universal
para todos que falo
para todos os lugares
todos os tempos
de alegria ou de sombras
falo de palavra livre
de vento no deserto
palavras de águas amazônicas
de aves sem pouso
cidades mortas
animais em extinção

assim são minhas palavras em ruínas
desmedidas e musicais
de pedra em repouso
mesmo quando as montanhas
de abusos e absurdos
se desabam em nuvens de silêncio e de terror
e as geleiras se derretem
contra a ignorância
a ira e a arrogância dos homens sem pares

falo de fala amável e necessária
do que me é dado ver e sentir
do que me é dado sofrer e sorrir
falo do que de humano existe
em todos os homens
de todos os tempos e lugares
para que vida se cumpra
e floresça em sua plenitude
no coração da humanidade

quem tem ouvidos que ouça
o poema da alegria
da dor da arte universal
de minha parte esqueço o som vazio
a sinfonia de minha própria boca

domingo, 29 de novembro de 2009

Cecília

assim diria Cecília
eom sua delicadeza
tranqüila mais que um lago
em uma tarde sem vento
mais calma que a tristeza
mais triste que a beleza
de seu rosto irrequieto
assim diria a poeta
das coisas mais pequeninas
das magias mas secretas
atrás das portas fechadas
onde as palavras florescem

a vida parece impossível
no coração do
universo
se não for com alegria
pela palavra tocada
se não for toda bebida
sobre toalha bordada
se a vida não for sentida
repartida e bem cuidada
se não for vida incompleta
se não for reinventada

j

sábado, 28 de novembro de 2009


o silêncio é de ouro
ensina o professor
o vigário
a família zelosa
em nome da ordem
e dos bons costumes
da vida bem comportada
sem eira nem beira

quem fala muito
dá bom dia cavalo
repete em coro a gente mineira
mesmo assim falo
escrevo
resisto
grito
protesto
proclamo palavras de prata
silêncio demais adoece
anoitece a casa
mofa as paredes do espírito
amolece a carne
denuncia os sigilos do corpo

silêncio demais apodrece a alma
VivaViola – Sessenta Cordas em Movimento.

A viola caipira possui magia própria, eleva o espírito, amplia a percepção, educa a sensibilidade, aprimora o gosto.
Não importa se fala de temas comuns e cotidianos, se fala do amor, da vida na roça, da natureza, ou se conta uma história acontecida ou inventada.Não importa se chora ou protesta.
Quando cultivada com maestria e sinceridade a viola caipira sempre toca coração e mente de todas as pessoas.


nstrumento vibrante. Transita com a mesma desenvoltura pelas mãos dos mestres nas folias, folguedos e festejos populares, nos bailes da roça, nos teatros e palcos urbanos.
Pelas suas características e pela autenticidade dos valores que representa e defende, a viola caipira é símbolo da identidade da cultura popular brasileira.
Fazem parte do Vivaviola importantes nomes da viola de Minas Gerais:
Bilora,Chico Lobo, Gustavo Guimarães, Joaci Ornelas, Pereira da Viola e Wilson Dias.

terça-feira, 24 de novembro de 2009


viagem
a viagem pela leitura
é ventura diferente
o que mora nas lonjuras
fica pertinho da gente

o livro esconde piratas
estrelas mares serpentes
campos castelos e casas
nas florestas reluzentes

tudo no meio das letras
as letras dentro das linhas
as linhas todas bem pretas
da cor de certas frutinhas

e nem precisa passagem
nem endereço nem mapa
o leitor nesta viagem
vê o mundo pela capa

depois o livro se abre
ao toque firme das mãos
logo se vê os lugares
as formas e a dimensão

nos livros moram as fadas
índios, reis, animaizinhos
cada pausa é uma pousada
depois de muitos caminhos

a viagem pela leitura
dá prazer só de pensar
na escrita e na gravura
e no leitor a voar

seja em casa ou na escola
mo carro no lotação
mal o avião decola
some na imaginação

segunda-feira, 23 de novembro de 2009



a um passo do inferno
o homem pós-moderno
se espedaça
se orgulha
se humilha
ilha de sombras insônias
de tristissimos signos
e armadilhas

sábado, 21 de novembro de 2009


cada palavra uma alma
cada palavra uma aura
fúria humana
flatua amena
cada palavra no poema
versicanta a voz terrena
exala seu veneno
o vocabulário aurífero se abre
sob o céu de tristes açucenas

escrevo sem lirismo
por necessidade dos nervos
sem meio termo
sempre que impreciso
vocabulário volátil
vivo à beira do abismo

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

há muitas formas de amor
muito mais formas de desamar
amar sem amor
desamar de amor
amar amar amar
sobre todas as coisas
sem forma e sem esperança

o coração doente não sabe
porque se entrega a tão grande
descabido amor

exige que o corpo se estenda sem razão
na direção de outro corpo sem sentido

há muitas formas de não se entender o amor

terça-feira, 17 de novembro de 2009


amor

no texto
as palavras se abraçam
signos amorosos
se entregam ao calor das letras
dançam
voam no vazio da voz
no espaço do poema
engendram novos sentidos
primitivas borboletas

falo da origem
da floresta
onde
a vertigem
verbo vegetal
começa

tudo a tudo
neste verso único
gesto
se liga
desde o primeiro
grito de luz
ao ultimo seguinte
verso
no vértice da noite
inexorável
impenitente extinta

autonomínima

vivo da palavra
mínima
da que em mim
ainda resta
autônoma e ínfima
anônima por fora
luz infinita fera
me ilumina
por dentro meu corpo dilacera

segunda-feira, 9 de novembro de 2009



AFP PHOTO JOHN MACDOUGALL
berlin

berlin berlin
o mundo todo
única verdade comemora
a queda do muro de Berlim
brindes etílicos
rimas idílicas
fogos de sacrificios
música
samurias coloridos
painéis de liberdade
míticos rituais
da mídia irremediável
Sérvia
comemora aos berros
nos bares e becos
o fim da história
a funesta festa do mercado
o santuário do lucro
saturado de inutilidades
mas perto de mim
persistem tantos
tristes postais
trágicas barreiras muralhas turísticas
carros de luxo
casas em ruínas
reinos virtuais
falsas cores e luxúrias
cercas elétricas
caras fechadas
fechaduras de ouro
fachadas desertas
asilos de solidão
pobreza absoluta
desigualdade
e servidão
entre mim e meu vizinho
eu sozinho
não há paisagem possível
nem água nem passarinho
carinho incomum
na esquina transita figura esquiva
me escuta
não há
um buraco sequer
no cérebro eletrônico
uma brecha que seja
na parede que divide
o quintal das dores
universais
tudo de murmúrios e revides ocultos
se orgulha
doma
domina
doura a pílula da alegria
a Terra dorme
em paz sobre os cadáveres
a linguagem triunfante
mata o sonho
muda a senha
assanha a sede
cega o anjo da esperança
nenhum caminho leva à honra
à Roma ao amor entre os homens
todos os dez caminhos levam ao simulacro
ao rumor de um tempo estúpido
espúrio e sem nome

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

sexta-feira, 9 de outubro de 2009


criança

se fores capaz de criançar o vocabulário
de ver um pássaro nos olhos do gato
um peixe no galho das árvores
um carneiro no algodão das nuvens
por certo
ainda tens uma criança em teu coração

criança é signo de liberdade
sigilo da imginaão
não se recohece pela idade do corpo
mede-se pela voz da alegria
não é questão de tempo
é quando a inocência do espírito
vence pelo amor toda a hipocrisia

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

CÓPIA REVISADA

Desafios da ética na contemporaneidade.
Papel da educação e o lugar da poesia.

Senhoras e senhores, boa noite,

Alguns homens buscam ouro.
Outros, fantasia!
Há os que se reinventam
Entre sombras e atalhos .
Aventuram cada sol em nome da vida.

De inicio, agradeço aos responsáveis por este evento e aos gestores desta Universidade pelo convite.É um privilégio dialogar com um público diferenciado e interessado em assunto tão antigo e tão atual, ao mesmo tempo negado e acolhido ao longo da história da humanidade, em sua venturosa e trágica travessia pelo Planeta Terra. Reunir um grande número de pessoas dispostas a ouvir e discutir de maneira sensível e democrática um tema pungente e necessário é já , por si, sinal de que nem tudo está perdido para o ser humano, no complexo contexto social , em que todos, sem exceção, vivemos mergulhados na mais absurda perplexidade. Todos, inclusive nós, pequena parcela de cidadãos brasileiros e do mundo, vizinhos no pequeno Planeta Terra e dos imponderáveis sítios perdidos no coração do Universo.

Viajei muitos quilômetros para estar aqui, nesta noite. Durante o percurso, cortei paisagens de nuvens, sobrevoei cidades, atravessei campos e cerrados. Vi e imaginei grandes rebanhos de novilhos brancos pastando obedientes e serenos, enquanto engordavam sob as ordens o desejo de seus donos, vi e imaginei fábricas, usinas, represas, universidades, hospitais, presídios, catedrais, estádios de futebol, motéis, armazéns, florestas destruídas, montanhas e abismos, toda a arquitetura sócio-econômica e político-cultural, de um mundo ébrio de poder, cego pelo saber, saturado de bugigangas e de informações e, por isso mesmo, em muitos pontos ameaçado de desabar. Casas abandonadas, trabalhadores madrugando em bandos, feitos pássaros sem pouso, em busca de sustento e de menos sofrimento para si e para suas famílias.

Risco maior e mais evidente após a conquista da violenta vitória e da arrogante e emergente hegemonia, em escala planetária, do projeto neoliberal.
Diante deste cenário, nada animador, o que teria a dizer-lhes, senhores professores, estudantes e outras pessoas presentes, aqui, hoje, um outro cidadão brasileiro, igualmente perplexo e ferido pelas mazelas nacionais e contemporâneas?

Alguns, talvez esperem de mim, um discurso sistemático, metodológico e historicamente fundamentado, sereno e ascético, como convém a um clássico professor de Filosofia. Outros, talvez, ficassem felizes se minhas palavras avalizassem o comportamento autoritário e acrítico de um processo mecanicista e funcionalista de transmissão de informação e de mera reprodução da sociedade. Falas poéticas, nem pensar! Porque o verdadeiro espírito poético desequilibra as regras do jogo. Nada de metáforas. Nem por dentro, nem por fora da fala cotidiana. Do jargão acadêmico. Nada de paralelismos, aliterações, ou aproximações sonoras, rítmicas e/ou semânticas do tipo escola/gaiola/viola. Nada que acenda, em demasia, a curiosidade e a imaginação dos estudantes. Asas/brasas; abraços/abra/cadabra.Casas. Casais.

Não por acaso, sortilégios assim estranhos e metodologicamente incontroláveis não são aconselháveis aos jovens descobridores do mundo e da vida. Dos desbravadores do espírito, dos riscos e da alegria de viver. Dos mistérios da vida da morte. Dos desafios da existência individual e coletiva, da sobrevivência da humanidade. Para estes jovens iluminados pelo desejo de liberdade e pelo sabor do saber (e não alunos –isto é, sem luz - como até hoje insistimos em nomeá-los, em contraposição à luz dos mestres, do professor, das instituições de ensino , que de tudo quase tudo sabe, ou se pressupõe saber) a ética, na sua essência e na sua historicidade, reserva melhores e mais valiosos e incorruptíveis tesouros.

E que tesouros serão estes? Não se trata aqui, de simplesmente entregar, de mãos beijadas, uma lista exaustiva destes tesouros conquistados pela humanidade, como se fazem com produtos de consumo em campanhas publicitárias de liquidação. Trata-se, ao contrário, de tesouros em falta, não ofertados cotidianamente. Raridades somente encontráveis a partir de uma arqueologia do conhecimento. Frutos de escavações profundas no espírito humano, valores e formas de ser incorporados no comportamento, nos gestos e atitudes cotidianas de cada pessoa, de cada indivíduo concreto, enquanto sujeito responsável e atuante no seio de uma determinada sociedade.

Neste ponto de nossa quase conversa, vale a pena voltarmos à mitológica Grécia de onde herdamos a essência do que pensamos, do nosso modo de ver e interpretar o mundo. Seria erro imperdoável ignorar a tradição do pensamento grego em função das mudanças históricas e das injunções conjunturais de um mundo em crise, sob o rótulo plástico e embaçado da pós-modernidade. Conceito ambíguo que tudo/nada abarca de todas as formas, com ou sem fundamentação sólida e consistente.
Assim, na geléia geral do cenário contemporâneo, parece conveniente a dificuldade em se estabelecer parâmetros e critérios válidos de comportamento éticos, científicos, políticos, econômicos, sociais, morais, jurídicos, estéticos, artísticos e culturais. Tudo sugere que, sob o signo da “satisfação das necessidades imediatas e superficiais” e da manipulação potente e onipresente da mídia e do marketing, o consumismo, a todo e a qualquer custo, seja o único valor vigente em nosso dias.

Daí que sucesso, poder, competição, individualismo, egoísmo, traição, negociação, vantagem, chantagem, insegurança, medo, violência e morte sejam palavras que habitam nosso cotidiano , chaves que permitem abrir os grandes templos simbólicos do mundo contemporâneo. Raras instituições têm conseguido escapar deste vírus letal que, no campo da saúde, pode ser chamado pelo nome de Aids, de tuberculose, malária, ou gripe suína. No campo sócio-econômico e político atende por diversos apelidos como mercado, marginalização, desemprego, suborno, manipulação, corrupção e omissão, para citar apenas alguns de seus cognomes.

No campo educativo e cultural a situação não é menos grave, ao serem os que dela participam, igualmente reeificados e mercadorizados, rebaixados ao nível de objetos postos à venda. Despojados de tudo o que lhe dava sentido, ou seja, a subjetividade, a criatividade, a afetividade, a alegria da descoberta, a participação livre e democrática no processo coletivo de busca e construção da autonomia e da cidadania, os educandos também estão à deriva.

Senhora e senhores, quão longe estamos do ideal grego. De um tempo e de um lugar onde o conceito de ética que, provavelmente nasceu da necessidade de se criar um rumo para a existência humana, para evitar que os aventureiros, e navegadores dos mares antigos, não se orientassem somente através das estrelas, mas por princípios que os protegessem das artimanhas e sofismas da vida real e os impedissem de sucumbir à deriva nos mares e marés das paixões humanas. Estamos, agora, nos transformando, passiva e docilmente, em seres de consumo, animais sem compaixão, inimigos permanentes de nós mesmos e de nossos pares.

Quão longe estamos de compreender e viver no nosso dia-a-dia a ética entendida como ethos, moradia do ser. Ética como lugar da convivência e do cuidado , como sempre reafirma em suas falas o filósofo e teólogo Leonardo Boff. Se houvesse tempo, faríamos um passeio pelos jardins de Epicuro, conversaríamos, sem preconceito, sem fundamentalismos, sem dogmatismos com a tradição do pensamento ético, colocando-a vis-a-vis com os questionamentos e reposicionamentos dos filósofos contemporâneos.

Entretanto é bom relembrarmos, antes de chegarmos ao final deste nosso memorável encontro. A questão ética não se esgota no ato de se estudar e conhecer a história da Filosofia, a trajetória do pensamento ético no ocidente nos dois últimos milênios. A ética, como a entendemos, só existirá se for incorporada no agir, no sentir coração do ser humano. É dimensão profunda, mas não deve ser confundida com a fé de qualquer natureza, embora existam vestígios éticos desde as Leis de Moisés ao Alcorão. Ética também não se confunde com moral, sistemas jurídicos e legais, sendo que nenhum destes sistemas podem renegar nem violar seus princípios. Prova disso é a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, as constituições democráticas dos principais paises do mundo, incluindo a nossa de 1988, nas quais os princípios éticos e cidadania estão preservados. Contudo, na prática, é comum, sobretudo em nossos dias, testemunharmos a existência de leis injustas, portanto, não éticas e de jurisprudências imorais. Isto prova que a dimensão ética é de natureza dinâmica e deve se realizar através da vivência, da defesa e das conquistas diárias dos cidadãos coletivamente comprometidos com a vida, com a segurança ,com a alegria e a felicidade de seus semelhantes.

E a escola, onde fica nesta história? Bem, segundo Ruben Alves, em entrevista concedida à Revista Ecológico , de“Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. (...) . Porque a essência dos pássaros é o vôo.”“Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado”. De certa maneira, esta é, também, a natureza da ética. Trata-se de experiência pessoal, de atitude individual, em contextos históricos particulares e concretos, Semelhante ao que acontece com o ato de voar, ética não se ensina. Estimula-se no seio da família, da escola , da sociedade, das instituições jurídicas e civis, religiosas ou não.Ser livre e ser responsável pela sua própria liberdade, é de inteira responsabilidade do ser humano, aprendizado que se conquista ao longo da vida. Alguns pássaros voam mais alto que outros. Estes são águias, diria Leonardo Boff, outros mergulham no abismo da vida. Contentam-se com as migalhas, com os dejetos que se acumulam à altura do meio fio. Na rês do chão. Voar não compõe seu repertório de sonhos. Seus mapas de utopia.

Mesmo em contextos adversos, como o da sociedade contemporânea, deve se ressaltar o papel da escola e da educação como ambientes responsáveis pelo estímulo do exercício da liberdade e da ampliação do horizonte ético em termos exemplares e de excelência pedagógica. Neste ponto , gostaria de compartilhar com vocês mais um depoimento de Ruben Alves no qual afirma:

“Não acredito que exista coisa mais importante para a vida dos indivíduos e do país que a educação. A democracia só é possível se o povo for educado. Mas ser educado não significa ter diploma superior. Nossas universidades são avaliadas pelo número de artigos científicos que seus cientistas publicam em revistas internacionais em línguas estrangeiras. Gostaria que houvesse critérios que avaliassem nossas universidades por sua capacidade de fazer o povo pensar. Para a vida do país, um povo que pensa é infinitamente mais importante que artigos publicados para o restrito clube internacional de cientistas.”

A escola, portanto, defende José Luiz Quadros de Magalhães em entrevista , publicada na edição nº 400, de setembro de 2009, Jornal Mundo Jovem, “ tem um papel fundamental nesse processo, pois é o lugar do conhecimento e do aprendizado. O ambiente escolar deve ser pautado numa visão democrática que se inicia a partir da delimitação da gestão do ambiente onde se desenvolve a educação.”
E a poesia? Bem a seu modo, vem, desde os tempos gregos, ora ostensiva oura silenciosamente, contribuindo para que a linguagem da alegria e da esperança não desapareçam para sempre da face da terra. É pela poética, pela libertação e renovação da linguagem, a morada do ser, via Martin Heidegger, que o homem se eleva acima da opacidade cotidiana e ilumina a clareira da enigmática floresta dos signos para erigir, entre nós, o labirinto da Verdade, do bem e da beleza.

Pela poesia, posso dizer sem medo de cair no ridículo, que já sinto saudades de todos vocês, saudade original, plantada no coração mesmo do ser”. Seria o sentimento ético uma espécie de saudade do ser original? Saudade de uma morada comum, de uma vida comunitariamente vivida e compartilhada de maneira livre e solidária? Ou isto seria apenas um devaneio do espírito, uma licença poética absurdamente exagerada? Ou maior absurdo seria viver o que estamos vivendo cômoda e passivamente,sem nos questionar, sem questionar nossos pares, sem nos indignar? Não basta, portanto , sermos livres. Precisamos ter consciência de nossa liberdade e sabermos agir de maneira livre, procurando sempre respeitar a liberdade do outro. E para reafirmar a grandeza, a beleza e a importância da ética podemos dizer com Imanuel Kant, o mais destacado filósofo do iluminismo, que dedicou grande parte de seus estudos para lançar as bases de uma ética autônoma, nos limites da razão humana: "As estrelas no céu e a ética dentro de meu coração", ou seja, dentro dele próprio. Poder-se-ia dizer: dentro do coração de cada homem, cuja principal missão é interferir e transformar o mundo, transformando-se a si mesmo.
Porfim, por tudo que nos aconteceu esta noite, já podemos falar de uma certa saudade, marcada pela afetividade e pelo entendimento, a mesma saudade que, conforme Rubem Alves, é nossa alma dizendo para onde ela quer voltar.”

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

pelo poema o poeta se erige
e se sustenta
escultura de nuvens
solta
no vazio do vento

pelo poeta o poema se inssurge
origem e movimento
o poeta e o poema se fundem
no ser
arte essencial
mútuo esquecimento

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

para além das palavras
descansam formas opacas
o sem discurso da pedra
das coisas insignificantes
o céu sobre árvores mudas
espanta pássaros em bandos
tudo de invisível existência
se banha
molha de solidão os olhos do mundo

o homem indefeso habita
a clareira do verbo

sexta-feira, 31 de julho de 2009




VivaViola lança Cd e se apresenta no Grande Teatro do Palácio das Artes

Depois de lotar o Teatro Alterosa, durante três dias em 2008, o VivaViola lança Cd e se apresenta, no dia 19 de agosto de 2009, no Grande Teatro do Palácio das Artes. Esta é, sem dúvida, uma boa opção para quem aprecia a música de viola de raiz.
Lançado ano passado, o Projeto VivaViola, 60 cordas em movimento, reúne seis importantes nomes da música regional mineira: Pereira da Viola, Chico Lobo, Wilson Dias, Bilora, Joaci Ornelas e Gustavo Guimarães.
O repertório privilegia o trabalho autoral dos artistas, destacando-se a parceria de alguns deles com o jornalista e poeta João Evangelista Rodrigues. Dinâmico e descontraído este espetáculo integra a moda de viola, as folias e os catiras, com ares de renovação criativa. Os seis violeiros ficam no palco durante toda a apresentação, alternando-se em solos e duos. Há momentos, sobretudo, na abertura e no encerramento, que o grupo faz uma cantoria coletiva o que aumenta, ainda mais, a força expressiva e a beleza do espetáculo. Os ingressos já estão à venda na bilheteria do teatro de segunda-feira a sábado, de 10h ás 21h00. Nos domingos e feriados, de 14h00 às 21H00.

CD VivaViola

Primeiro registro sonoro feito por este grupo de violeiros, o CD Vivavio0la é um retrato do espetáculo que será apresentado no Grande Teatro do Palácio das Artes. Além de ter o mesmo nome do projeto, o Cd ViVaViola foi gravado em clima de colaboração, descontração e alegria. Verdadeiro mutirão, onde todos desempenharam, e bem, o papel de cantor, instrumentista, diretor artístico, dando opinião e discutindo cada detalhe do processo de gravação, da arte gráfica, fotografia e textos do encarte. Esta é uma atitude rara em tempos difíceis, marcados, sobretudo, pelo individualismo, pela disputa por verbas via editais e a acirrada competição do mercado. Esta é talvez uma das principais lições destes seis violeiros: a arte pode e deve ser compartilhada e quando isso acontece com maturidade, os resultados são os melhores possíveis.
São ....faixas, correspondentes ao repertório do espetáculo VivaViola, seguindo a mesma ordem e formato de apresentação. A gravação foi feita no estúdio Rio Abaixo, de Gustavo Guimarâes. A arte gráfica tem assinatura de Joaci Ornelas e as fotografias e textos de apresentação de João Evangelista Rodrigues.
Seja pela qualidade do repertorio, seja pela forma que foi produzido, o CD VivaViola é, sem dúvida, um importante documento para a história da viola caipira em Minas, nesta primeira década do século XXI. Pode ser entendido como testemunho de que, contra todas as predições, ainda são possíveis a poesia e a música, a amizade e a esperança. Por isto, é possível resistir. Continuar cantando e se educando, pela magia da voz, pelo toque e sonoridade poética da viola caipira. Por isso pode-se falar, ainda, parodiando o poeta perrnambucano, João Cabral de Melo Neto, de uma educação pela viola.Vale a pena conferir.

O espetáculo
Esta é a segunda vez que o espetáculo VivaViola é apresentado em Belo Horizonte. No ano passado, os violeiros Pereira da Viola, Chico Lobo, Wilson Dias, Bilora, Joaci Ornelas e Gustavo Guimarães lotaram o Teatro Alterosa durante três dias.. Muitas pessoas não tiveram a oportunidade de ouvir e ver o que este grupo de violeiros mineiros é capaz de fazer nos braços da viola. A diferença de estilos, a marca regional de cada um deles, a diversidade do repertorio, tudo contribuiu para que este espetáculo agradasse e conquistasse o coração do público. Nesta apresentação, dia 19 de agosto, no Grande Teatro do Palácio das Artes, a energia não será diferente, tendo como novidade, o lançamento do Cd VivaViola.

Tanto o espetáculo quanto o Cd VivaViola mostram as riquezas e particularidades originas do universo da viola caipira em suas diversas paisagens sonoras. Os seis violeiros, cada qual com seu estilo, suas formações e vivências, procuram ressaltar importância deste instrumento enquanto expressão artístico-cultural coletiva e, por toda sua história, como símbolo da identidade da cultura popular brasileira. Revigora e reafirma, assim, a existência de uma coletividade que se desenvolve em torno da tradição – não conservadorismo - no âmbito da música mineira e brasileira.

Pontos de Vista

Em matéria no dia 24 de outubro de 2008, em O Tempo, o jornalista Daniel Barbosa refere-se ao espetáculo como “Uma verdadeira esquadra da música de raiz (...) mutirão que lotou o teatro Alterosa durante três dias”.

O jornalista César Macedo, especial para o Hoje em Dia, 9 de novembro de 2008, na matéria “A hora da Viola” faz alusão a capacidade deste instrumento de reunir pessoas, de sensibilizar mentes e corações pela a força do seu sotaque ao mesmo tempo mágico e realista, pelas suas inúmeras possibilidades sonoras e melódicas.

De acordo com repórter Eduardo Tristão Girão, Jornal Estado Minas, 24 de outubro de 2008, o espetáculo definiu-se como “Seis Violeiros mineiros de diferentes origens e formação se encontram para provar que a viola tocada em minas está viva, pulsante; (...) mostrando o bom panorama da produção atual para o instrumento, sem deixar de lado tradição como cantigas rodas e folias de reis”.

O repertório

O repertório privilegia o trabalho autoral dos artistas. Dinâmico, integra a moda de viola, as folias e os catiras, com ares de renovação criativa. O formato estético do espetáculo prevê que os seis músicos estejam no palco o tempo inteiro.

Entre as músicas do repertório, Wilson Dias apresentará “Brasil Festeiro”, composição inédita feita em parceria com João Evangelista Rodrigues. E Pereira da Viola interpretará a conhecida “Menina Flor”, autoria dele com Josino Medina. Joaci Ornelas cantará “Moda de Violeiro”, uma de suas parcerias com o também poeta e compositor João Evangelista Rodrigues. Enquanto Gustavo Guimarães cantará “A voz do Rio”, que faz parte do seu primeiro CD, “Vaqueiro”. Chico Lobo apresentará uma de suas músicas mais apreciadas, “No Braço dessa Viola”. E Bilora, “Calango na cidade”.

Os artistas, cada qual com suas particularidades e estilos, naturais diferentes lugares de minas, apresentam músicas que retratam as influencias dos lugares de onde vieram, em genuínas formas de expressão, como modas, batuques e toadas.

A Viola Caipira

Instrumento fundamental na formação da identidade cultural de Minas e do Brasil, a viola caipira continua presente nas manifestações populares, nas festas religiosas e profanas. Nas palavras do professor Romildo Sant’Anna a viola caipira “é uma das mais relevantes expressões da cultura e da arte radicalmente brasileira”.

Símbolo do coletivo, do mutirão, este projeto encadea-se no processo de legitimação da viola caipira como marca da diversidade cultural brasileira. O espetáculo VivaViola é, de certa forma, uma referência aos sertões de minas, através de canções que refletem as vivências afetivo-sensorial deste grupo de cantadores comprometidos com a realidade social e os valores da cultura brasileira.
A música de viola ressurge a partir dos anos 80 no ambiente cultural contemporâneo, após um período de ostracismo com força e importância no cenário fonográfico. Diferente dos modismos, ela retrata questões relacionadas à tradição com ênfase na expressão de raiz.
Sobre os violeiros
Chico Lobo – um dos mais ativos violeiros do cenário nacional e internacional, idealizador e apresentador, desde 2003, do Programa de TV Viola Brasil, especial veículo de divulgação da viola –, ressalta a importância deste projeto: “É sempre bom juntar minha viola com a dos companheiros. A viola é de festa, é de mutirão, é de coletividade. Sendo assim, se uma viola já é bonita, imagina quando muitas se juntam numa cantoria certeira”.
Para Gustavo Guimarães – um dos legítimos representantes da nova geração da viola –, o concerto tem um significado especial por ser este um momento de afirmação e ascensão da viola. “É importante ressaltar também os princípios que giram em torno da música de viola, como a defesa de valores éticos, morais, culturais e espirituais”, aponta.
Pereira da Viola, um dos artistas mais reconhecido de Minas e do Brasil, presidente da Associação Nacional dos Violeiros (ANVB), situa o concerto VivaViola no contexto do movimento nacional em torno deste instrumento. Ele afirma que, “Em Minas, sempre nos deparamos com um certo vazio, se comparado a São Paulo e até mesmo outros estados, no processo de identificação, estruturação e expansão deste movimento musical. Compreendo que este momento é profundamente oportuno, para esta ação coletiva que estamos desenvolvendo”.

A opinião de Wilson Dias – que tem direcionando sua carreira para o encontro entre a tradição e o urbano, com um viés especial para a cultura popular –, reforça poeticamente essa idéia da valorização da música de viola caipira, que vem crescendo a cada dia. Para ele, “cabe a todos nós o trabalho de manter enlaçados os fios que nos ligam, de maneira que a nossa rede de vida permaneça ‘redeviva’, em permanente frescor construtivo”.

Fiel às suas origens, o violeiro Bilora – um dos mais premiados violeiros do Brasil – faz questão de ressaltar que “a viola representa a cultura popular brasileira do interior. Está presente na alma desse povo e tem cheiro de mato. O concerto é uma festa da música semeando o belo som da viola”.

Um dos responsáveis pela realização do I Seminário Nacional de Viola Caipira (evento que reuniu, em Belo Horizonte, neste ano, os principais violeiros do país), Joaci Ornelas tem seu trabalho essencialmente ligado à viola caipira, como tradução musical desde o estilo renascentista, barroco, até os batuques e composições próprias. Ele afirma que este espetáculo tem dupla importância: pessoal e artística. “Primeiro, me coloca em contato direto com o trabalho musical de outros artistas. Segundo porque favorece uma troca de informações, sentimentos, experiências com artistas que acreditam numa vida mais justa e bela”.

Serviço:
Grande Teatro do Palácio das Artes
Dia 19 de agosto de 2009 – 21 horas
Informações bilheteria do Teatro: 3236-7400




Produção VivaViola – 60 cordas em movimento
Coordenação:
João Evangelista Rodrigues
31 3371 5525

Produção:
Ângela Lopes - 31 3459 8026 / 9954 6580
Daiany Durães - 31 8315 0450
Nilce Gomes: (31) 3427 9670 / 9113 1626 / 8721 7122

e-mail: pvivaviola@gmail.com

quarta-feira, 8 de julho de 2009


onde estiver a poesia
aí está meu coração
onde habitarem a dúvida
a inquietude da arte
a luta pela palavra mais fértil
na clareira da cultura
aí habitam meus irmãos
seja homem ou bicho
seja pedra ou pássaro
seja lua clara ou plena escuridão

onde houver a paz
meu coração descansa
até o início da próxima batalha
da alegria da lucidez e da loucura

onde estiver a poesia aí está meu coração

 

terça-feira, 7 de julho de 2009


culinária

o frango a molho pardo
o feijão tropeiro que minha Vó cozia
dava água na boca
o doce de leite
deixa a alma satisfeita
minha Vó não freqüentou escola de culinária
costumava cantar
enquanto o fogo trabalhava
e a panela fervia

de certo não há receita
para o poema de cada dia

sábado, 27 de junho de 2009


em cada poema uma dúvida
um nuvem luminosa
em cada poema sem resposta
a alma se interroga

a cada poema uma bússola
uma ilha que se afasta
a cada poema uma porta
atrás de outra porta

em cada poema a palavra absoluta

passeio entre árvores e livros
em ambos leio
com os pés e os olhos alheios
o coração da humanidade
colho furtos doces e amargos
nem por isso interrompo a escrita
passo toda minha vida entre livros e árvores
sempre que posso
com humildade leio
não ignoro os perigos do bosque
as armadilhas do signo
tudo pode acontecer no transitório passeio

sexta-feira, 26 de junho de 2009


a poesia
depois de Auschwitz
é ferida verbal
imperdoável alegoria
paisagem inabitável
inesquecível cicatriz

quarta-feira, 24 de junho de 2009

legado

quando eu morrer
não deixarei fazendas
nem gado
nada no armário
na tela do micro
na memória do leitor
alguns amigos talvez
cuidadosamente amados
não deixarei dívidas no erário publico
nem saudades


deixarei apenas poemas de pedra
contra as armadilhas do espírito
as artimanhas do amor
de pedra e bruma
de músculos e música
incorruptíveis à traição
ao cinismo do lucro
ao interesse subalterno
ao lirismo burocrático

quando eu morrer
- e breve há de ser -
serei um poeta morto
livre de fato

domingo, 21 de junho de 2009


a pedra em Minas
por limite
na vertente se hospeda
no útero da montanha imberbe se decanta

pela pedra em Minas
a alma da poesia
se define
Itabira
Ouro Preto
Dores do Indaiá
Santo Antonio do Monte

o Sítio do Sant” Ana
intocado ainda
pela fúria da mídia
pela pedra se mede

de palavra em palavra
lavra a estrada pedregosa se alastra
a mesma curva atemporal escura
em arcos invisíveis
se inscreve
na fornalha do poema
aflora o campo limpo
transcende a pedra branca
ferve arranha arranca a verve voa
não concede

sexta-feira, 12 de junho de 2009


o amor passeia
sobre teu corpo de areia e sal
lambe em ritmos e sonatas
a base de teus pés
inventa algas e marés
em águas mais profundas
geme de prazer
crispa de sol mar
teus olhos negros me esculpem
de sombras e volumes sinuosos
sobre as dunas únicas da terra

sob o céu ateu e sem nuvens
teu vulto me perturba
meu amor se evapora no teu coração

segunda-feira, 1 de junho de 2009


Bate-Pilão celebra a cultura popular

Os violeiros Pereira da Viola e Wilson Dias celebram a alegria e a riqueza da cultura popular com o espetáculo Bate Pilão em tre apresentações durante o mês de junho, sempre às quinta-feiras, no Lapa Multshow, em Belo Horizonte.

Além de suas raízes comuns, alimentadas pelas águas dos rios Jequitinhonha e Mucuri, os dois artistas trazem uma forte herança familiar marcada pela vivência rural e pela musicalidade ligada às manifestações tradicionais, tanto religiosas, quanto profanas.São, portanto, vozes semelhantes e ao mesmo tempo diferenciadas, temperadas, cada uma a seu modo, pelos ritmos e danças, pela sensibilidade e pela história de vida e artística de cada um deles.

Bate Pilão, título do espetáculo, é o nome de uma das músicas, que faz parte do repertorio, composta por Pereira da Viola, Wilson Dias e João Evangelista Rodrigues. Este samba de roda sugere não apenas o ritmo do primitivo utensílio doméstico, mas a mistura de elementos culturais, pilados, purificados pela mãos dos homens e mulheres que compartilham suas alegria e seus cantos de trabalho.

No meio rural é comum duas ou mais pessoas alternarem as batida do pilão para limpar o arroz, o café, o milho, produtos básicos de sua sobrevivência, em um tempo em que ainda não havia energia elétrica nem o beneficiamento industrial dos alimentos. Feito de tronco de madeira e colocado geralmente em um canto da cozinha ou na varanda do terreiro, o pilão serve também de banco nas horas de lazer e de boa prosa.

A idéia, portanto, é permitir que as pessoas de Belo Horizonte aproveitem os festejos juninos, para entrarem em contato e conhecer os elementos da cultura popular brasileira, no que tem de melhor e mais autêntico em termos de mineiridade e de contemporaneidade. É como diz a música, “bate pilão da cultura/ amor, tristeza e paixão/bate palavra mais dura/que não merece perdão/farinha com rapadura/boca de forno e carvão”.

É com esta mistura de ritmos, de visões de mundo, de sentimentos e de estilos, que os cantores e compositores Pereira da Viola e Wilson Dias querem celebrar e compartilhar com o publico a alegria da festa, a saudável sensualidade da dança e do espírito lúdico, principias características das manifestações populares.Seja através de músicas como Bicho Calango, Dona Mariana, adaptadas por Pereira da Viola ou , de brincadeiras de roda, como Tindolêlê, de domínio
público, seja pelas adaptações feitas por Wilson Dias, como Da Lira, Rala Coco e Periquito Maracanã. Seja, por fim, através de músicas autorais, intencionalmente compostas a partir das vivências e pesquisas , enraizadas na cultura popular, como o Coco Sai Capeta , e o Samba de Roda, Bate-Pilao, entre outras, compostas por Pereira da Viola, Wilson Dias em parceria com o poeta João Evangelista. Isto, sem falar do forró de pé-de-serra, que marcou o início das atividades do Lapa Multshow, tornando este espaço uma referência das noites da capital l mineira.

Uma novidade do projeto Bate-Pilão é que além da magia de sua viola caipira, instrumento que o consagrou, Pereira da Viola vai se apresentar pela primeira vez em publico tocando rabeca. O músico explica que seu interesse pela rabeca nasceu pela identificação com a sonoridade e a força deste instrumento tão presente e marcante na cultura popular , em suas manifestações religiosas e profanas, quanto a viola caipira. “A rabeca e a viola aprecem sempre juntas nas festas populares e nas folias” , comenta Pereira.
A abertura do projeto Bate Pilão será feita juntamente com o lançamento do XXVII Festivale - Festival da Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha que este ano será realizado na cidade de Grão Mogol, de 25 de julho a 1º de agosto.O Coral Trovadores do Vale, da cidade de Araçuaí, participa da primeira apresentação do projeto Bate Pilão, como convidado especial dos dois artistas.
Outra novidade do projeto é a participação especial, como convidado, de um integrante do projeto VivaViola, lançado no Teatro Alterosa, em outubro do ano passado com a participação de Pereria da Viola Wilson Dias, Chico Lobo, Bilora, Gustavo Guimarães e Joaci Ornelas.
O VivaViola valoriza e divulga a música caipira, enquanto manifestação tradicional e fator de formação da identidade cultural brasileira.

No segundo semestre, o projeto Bate Pilão, , pretende mostrar, no Lapamultshow, outros artistas e grupos representativos da cultura popular Trovadores do Vale e Grupo de Coco Oricuri , de Belo Horizonte.

Serviço:
Local: Lapa Multshow
Data: Todas as quintas do mês de junho
Horário – 21h00
Preço Popular, meia: $r10,00
Endereço: Rua Álvares Maciel, Santa Efigênia, Esquina com AV.Brasil
Contato para entrevista:
Picuá Produções
Nilce Gomes – 31 – 34 27 96 70/ 87 21 71 22
Terra Boa Produções
Tuca Rodrigues
31 – 34 82 66 74 / 91 51 68 80

terça-feira, 26 de maio de 2009



sempre viva sempre
a amável artesania das mãos
o trabalho sustentável
a fé e a magia feminina
tecelãs de todas as manhãs
para sempre o sol
o vento no cabelo das meninas
os animais e os insetos
as pedras e o céu
as águas e as plantas
para sempre vivam
as mais belas flores do Capivari
bem ali no pé do Pico do Itambé

terça-feira, 19 de maio de 2009



Ocupação Dandarta. Uma experiência fotográfica

João Evangelista Rodrigues

O ato de fotografar é, em si, invencível desafio. O assunto sempre escapa diante de condições as mais adversas.Acrescenta-se a isto a condição humana do fotógrafo, sua história de vida, sua visão de mundo, seus medos, suas ideologias e neuroses de toda a ordem. E a fotografia? Esta vem? Surge? Constrói-se?
Grande desafio é penetrar em mundos desconhecidos ou que , de alguma forma, não fazem parte do universo do fotógrafo. De sua vivência.De sua classe social.Mundos paralelos, por assim dizer. Como chegar até o objeto de desejo da câmara? Como e quando disparar o obturador , uma espécie de rifle mortal, ante o qual a maioria das pessoas se curvam, por medo, submissão, curiosidade ou vaidade.Como estabelecer um relacionamento humano e cidadão com as pessoas que integram a cena, o cenário, o quadro da imagem: Por que escolhemos esta e não aquela personagem, que muitas vezes, manifesta seu desejo de ser fotografada, fuzilada, com um olhar de sedução ou de súplica?
Estas são apenas algumas das centenas de perguntas que envolvem o ato de fotografar e, para as quais, nunca tenho resposta satisfatória ,pronta e acabada. Neste campo sinto-me sempre no começo a cada experiência.

Ontem, dia 16 de maio, fotografei durante umas duas horas a Ocupação Dandara, no Bairro Céu Azul, em Belo Horizonte, para cobrir uma apresentação de Violeiros , em solidariedade ao movimento. Participaram da apresentação Pereira da Viola, Wilson Dias, Joacir Ornelas , Dimas, Gustavo Guimarães e militantes da Ocupação Dandara.Representantes de vários segmentos socais, como estudantes, apoiaram a manifestação cultural. Este grupo de violeiros, do qual faço parte como compositor, defende a idéia de que a viola deve estar a serviço das causas sóciais e na defesa da cidadania e da sustentabilidde.

Na verdade, fotografei pouco, levando-se em conta meu hábito de fazer muitas fotos em cada saída, para editar ...sempre tive a fotografia na conta das caçadas, das possibilidades, do inalcançável. Daí que faço o máximo de imagens que posso, para escolher, sabe-se como, com que critérios e dúvida, quais?
Enquanto mergulhava naquele mar escuro de barracas, cobertas de lonas pretas, meu pensamento não parava de fervilhar. Caminhar naquelas ruas de papelão e casas sem nada dentro, algumas sem teto, me pareceu caminhar por cenários de ficção, por labirintos imaginários. Não foi medo nem preconceito o que senti.Foi raiva e vergonha de testemunhar esta incômoda presença, de saber que ela faz parte de nossa arquitetura.Ali, bem ao lado de um dos bairros mais charmosos e valorizados da Capital. E, o que mais me chamou a atenção, na volta de meu trabalho foi a certeza de que todos os moradores daquelas mansões e freqüentadores dos restaurantes chiques da região, pareciam alheios a tudo e desfrutavam solenemente as delícias de sua vidinha confortável, nos limites dos valores burgueses.Tranqüilos com sua consciência. Com seus deveres de cidadãos plenamente em ordem. Pelo menos do ponto de vista deles, claro.
Sei que, como fotógrafo, neste curto espaço de tempo, não consegui chegar nem na beira desta realidade. Sequer toquei sua superfície. Caminhei, conversei, cliquei. Recebi belos sorriso de senhores e senhoras idosas, de crianças e e de jovens que ali estão , acampados , de plantão, à espera da sempre adiada solução da lei e da justiça.

Ate dançar, eu dancei, embora este não seja meu forte(rsrs), com uma senhora do acampamento. Fui preso e libertado por uma garota que fazia deste jogo uma forma de obter recursos para os acampados. Depois de preso , alguém paga uma pequena prenda de $R0,50 (cinqüenta centavos) , uma espécie de fiança pelo crime que você não cometeu (rss).Pronto.Você está novamente livre, para ir e vir.Pra desfrutar dos seus direitos de cidadão e dos “confortos e prazeres”propiciados pelo insaciável sistema neo-liberal.Moradia, saúde, educação, alimentação, transporte, cultura...Não é barato?Não é um barato?
Bem, voltando ao ato fotográfico, enquanto me empenhava a captar algumas imagens significativas ao meu propósito: apoiar o movimento Dandara – aviões , verdadeiras mansões luminosas , cortavam o céu de Belo Horizonte, por cima do Bairro da Pampulha.
Cá embaixo, éramos todos um bolinho de gente, pequenas formiguinhas carregadas de grandes sonhos e desejos...os tripulantes e passageiros daquelas espaçonaves, ansiosos como deveriam estar para pôr os pés na terra e voltar para o aconchego de seus lares, nem de cima, nem de longe, deram conga do que estava se passando no acampamento Dandara.
E o fotógrafo, bem, este aprendeu mais algumas importantes lições sobre a vida e sobre o ato de fotografar. Entre as luzes dos aviões e a tristeza de uma escuridão sem água ( a Copasa mandou cortar a água do acampamento) , o fotógrafo optou pela segunda opção.Abismado, como sempre deve ficar todo fotógrafo diante das injustiças históricas, das muitas realidades deste país, chamado Brasil;

segunda-feira, 18 de maio de 2009


Wilson Dias
Viola Caipira:
territórios de resistência
e de identidade da cultura

João Evangelista Rodrigues*

O desafio deste artigo é refletir, dentro de seus limites, sobre o papel de resistência da viola caipira, de dez cordas, enquanto elemento intrínseco de formação da identidade da cultura brasileira. Visa mostrar, também, o caráter visionário e crítico, por que não dizer revolucionário, que a viola, vem assumindo na contemporaneidade, após longo período de ostracismo. Não seria exagero falar de um renascimento do universo caipira, seja por meio da valorização deste instrumento, pela variedade de ritmos que ele proporciona, seja pela nova música que nele se compõe e canta, sem preconceito, antes com admiração, em todo o território nacional. Não pretendo, aqui, entrar em detalhes sobre a origem da viola, suas características técnicas e suas possibilidades estéticas, nem de sua evolução ao longo da história do processo de desenvolvimento sócio-econômico e político cultural brasielrio.

O leitor atento pode perceber, de início, que o que aqui se apresenta não é fruto de uma abordagem acadêmica, fundada em pesquisas formais e sistemáticas, mas nem por isso menos importante, por nascer da vivência, da observação e do contato direto com os diversos segmentos e ambientes que compõem o mundo da viola, hoje, no Brasil. Sendo assim, este modesto texto não tem a pretensão de verdade absoluta nem de esgotar o tema nos limites aqui impostos. Nem precisa dizer da relevância do tema que, aos poucos, vem ganhando respeito e conquistando espaço no mundo acadêmico, como matéria curricular e objeto de pesquisa não só nos Conservatórios e Faculdades de Música, mas em outras áreas do conhecimento, como Comunicação Social, Antropologia, Sociologia, por exemplo.

Portanto, nada mais se espera do leitor que, no final deste artigo, ele se desperte para a riqueza do universo da viola e sobre sua importante presença na paisagem humana e sócio- cultural da vida cotidiana brasileira. Feitas estas ressalvas já é hora de avançar um pouco mais rumo ao universo da viola caipira e mergulhar no coração brasileiro.Que neste itinerário, o leitor atente ler de maneira aberta e sem preconceitos e releve caso já tenha conhecimento ou domine, com maior autoridade, alguns conceitos aqui apresentados. Pois, ao homem do campo, que veio do meio rural, nos braços de quem a viola floresce e canta, é própria a humildade, sem submissão, a curiosidade, sem arrogância, a doação e a troca sem intencionar, de antemão, lucros ou vantagens imediatas.

Ao contrário, fazem parte do complexo caráter desse homem, dono de sabedoria e de comportamentos bastante peculiares, a cordialidade e a coerência entre o pensado e o vivido, entre suas crenças, sua religiosidade , seus mitos e o seu cantar. De mesma forma, sua ética, exigente e cuidadosa, apreendida com a natureza da qual depende, e com a qual sua vida e sua existência em muitos pontos se confundem.

E neste universo natural, de vida social incipiente que a viola floresce. Melhor dizendo, refloresce, após anos sumiço do repertório caipira, apagamento pela mídia e esquecimento pelo publico consumidor de musica. A viola caipira só não desapareceu, de vez, da paisagem cultural e musical brasileira, porque, ficou, durante anos – sobretudo entre as décadas de 70 a 90, resguardada no ambiente sagrado da religiosidade popular. Quer dizer sob a proteção das bandeiras das Folias de Santo Reis, do Divino, de São Benedito, de São Gonçalo e as festas de romaria. Manifestações populares profanas, de cunho lúdico e festivo como nos bois de janeiro, mutirões e bailes de roça, também serviram de santuário da viola caipira, seja preservando ou resgatando ritmos como o coco, samba de roda, batuques, cateretê, moda de viola, desafio e repentes e muitos outros ritmos enraizados nos gosto e na sensibilidade do homem rural.

Se por um lado, desde sua chegada ao Brasil, na época do “descobrimento”, com os jesuítas, a viola assumiu um papel de certa forma, pacificador, domesticador, e, portanto, conservador, não se pode ignorar , por outro, que ela possui uma natureza aglutinadora, festiva, lúdica, misteriosa e mágica. São estes últimos aspectos que fazem da viola caipira um símbolo de resistência e de identidade da cultura brasileira. Nem mesmo os interesses políticos e econômicos, a submissão de alguns segmentos culturais e de alguns grupos ao poder , conseguiram abafar esta força intrínseca que mora no cerne mesmo da viola.Harmonia e desejo de liberdade e de libertação que vibra em suas cordas finadas e encontra abrigos em seu braço , sempre disposto a lutar contra as injustiças e imposições.


Também a meio-caminho, entre a cidade e o campo, um entre-lugar, os bairros mais pobres e periféricos, onde a cultura popular continua resistinto ao massacre, às investidas da mídia, da massificação, termo fora de moda que, à falta de melhor opção , utilizo-o aqui. São massas de trabalhadores anônimos que tentam sobreviver com seus familiares com as mínimas condições possíveis. Neste quase não –lugar persistem núcleos, grupos, pessoas que ainda guardam os vestígios da cultura popular , oriunda do meio rural, como verdadeiras relíquias do patrimônio espiritual e cultural de nossa gente. Mesmo explorados, como mão de obra barata e não especializada, pela sociedade, violentados pela realidade sócio-econômica e vulneráveis aos efeitos da mídia, estes grupos tentam manter a tradição e as transmitir às novas gerações,presas fáceis de “produtos culturais” da moda, de gosto duvidoso, e de outras bugigangas impostas pelo mercado neo-liberal.

É verdade que grande parte das composições , consideradas obras primas, clássicos da música de viola, soam ingênuas diante das contradições sociais, reforçando e projetando conceitos e valroes que só interessam ao mandatários históricos e donos dos meios de produção , coronéis, latifundiários, industriais: em suam da elite agrária e industrial brasileira. Ao mesmo tempo, sempre existiu e, atualmente, com maior evidência, um número significativo e cada vez maior de compositores e de pessoas e grupos, cuja obras reflete visão crítica e postura engajada, não só diante das grandes questões como dos desafios planetários.

Que se der ao trabalho de buscar, de pesquisar, de parar e ouvir verá que a música de viola tem conteúdo forte.Fala da realidade trágica e contundente não só do Brasil, mas de um mundo global em vertiginosa mudança, a cujas conseqüências ninguém escapa. São mudanças que exigem de cada cidadão, onde ele se encontra, uma disposição de mudança e de adoção de uma “ética do cuidado, como bem propõe o conceituado teólogo e estudioso Leonardo Boff”.

Nesta perspectiva vem atuando entidades, instituições como Associação Nacional dos Violeiros do Brasil, o MST, Ongs e artistas e grupos de artistas espalhados por todo o pais. E o mais importante, importante; todo este trabalho reflete a alegria, a luminosidade, a força e energia que vem da Viola Caipira. É em torno deste instrumento sagrado, de seu bojo, que vem os acordes da alegria e as vozes da esperança de um Brasil mais justo, mais livre .Um Brasil festeiro e sincero Se me permite o leitor, vou fazer a defesa da viola , através desses versos feitos a singeleza e o carinho que a viola merece.

em defesa da viola

eu defendo a viola
pelo que tem de beleza
este instrumento chora
de alegria e de tristeza
quem quiser ser violeiro
tem que ter honra e nobreza

sei que a viola é bonita
mais bela do que princesa
parece moça de chita
em festa de realeza
quem quiser ser violeiro
tem que amar e ter destreza

minha viola é singela
mas é cheia de grandeza
o que sai de dentro dela
é a voz da natureza
quem quiser ser violeiro
tem que chegar de surpresa

eu defendo a viola
pelo que tem de certeza
pelo força da memória
por toda sua leveza
quem quiser ser violeiro
que jogue as cartas na mesa

minha viola é festeira
não gosta de viver presa
nas festas da padroeira
canta com fé e firmeza
quem quiser ser violeiro
que mostre sua proeza

a viola eu defendo
com amor e com brabeza
quando canto eu me rendo
à sua delicadeza
quem quiser ser violeiro
tem que vencer a riqueza

cada violeiro a seu modo
fez sucesso na defesa
todos juntos neste mote
vamos cantar com clareza
os violeiros e a viola
são sinceros companheiros

será isto o amor
mistério de pássaros
sob o céu sem fim
será isto
parede inevitável
trágica arquitetura
será isto
este mar de cores
linguagem e silencio

o amor não sei o que será
só sei que sinto
mesmo sem saber
o sabor deste momento
imóvel labirinto

quinta-feira, 14 de maio de 2009


amigos
são poucos
contam-se nos dedos
aprendem-se com a vida
com os segredos do tempo

amigos
são pouquíssimos
não se perdem
no lirismo dos temas
nos enredos e trâmites
da estrada mal sinalizada

convivem em silêncio
o amigo essencial
ao primeiro sinal ressurge da penumbra
ilumina

amigos não se perdem no percurso do medo

quarta-feira, 1 de abril de 2009


sei
poesia não é filosofia
se leio Fernando ressoa em minha pessoa
o pensamento do que não sou
tento refletir
a partir do que vejo
o que vejo pode não existir
diante da razão precária invenção da mente
sério
prefiro sorrir
viro paisagem presente
em seu devir
admiro entre poesia
e passamento oscilo
também mão sei
porque não sou vidente
nem tranquilo
se minha alma existe
talvez seja pássaro transparente
de mesma natureza
a alma da pedra
não sei se pedra existe
nem se tem alma o vento e as árvores ciprestes
se tiver
a alma terá a mesma natureza da alma agreste
da água em forma de rio
da torre da igreja
do pico do Everest
não sei se há algum sentido
em falar da natureza das coisas
se houver tudo será natureza
e nada terá sentido
a pedra água meu corpo que sou eu
o passado e o perdido
tudo seremos uma só paisagem
espelho sem alma
refletido
a nos olhar de longe o mar sem peixes
de passagem sem nada saber
da natureza do tempo da incomum viagem
de tudo com certeza
com razão
duvido

exconjuro
todas as palavras inúteis
adjetivos magros
gordos sem textura
advérbios sem valia
todas os palavrícios da literatura
esconjuro
os sinais de morte
na procura a linguagem si mesma se depura