terça-feira, 20 de abril de 2010


A dança dos anjos
Futebol em sua essência é festa para os olhos. Está mais perto do balé do que do Karatê. É lindo, livre e lúdico. Não tem nada a ver com brigas de torcida ou artes marciais.Pode até lembrar, em alguns lances inusitados, um jogo de capoeira. Assemelha-se às artes plásticas, a um painel gigante com minúsculas telas em movimento.Nisto, o futebol tem tudo a ver com a sedução da alegria e da visualidade da estética contemporânea. Nada a ver com a violência das ruas, das disputas de poder nas arenas de Roma ou do Congresso, com a desenfreada competição do mercado. Não quero, aqui, pensar o futebol simplesmente como produto ou evento alienante. Isto existe, mas fica por conta dos que desejam, em nome de interesses próprios ou de grupos hegemônicos, transformar tudo em mercadoria, em objetos de consumo. Em meios de dominação. Também não quero ver, de propósito, o torcedor como alienado joguete das olas e marolas de braços, cores, caras e caretas, apitos, cornetas e bandeiras que aumentam, ainda mais, o brilho dos estádios. Dos grandes e pequenos. Das várzeas, sobretudo. Imagino o futebol como uma confraternização dos sentidos, caarnavalizaçao dos sentimentos e instintos mais primitovos do ser humano à procura de si mesmo. A brincadeira, a sublimação da força bruta, a comunhão da vida com sua dura e permanente realidade. Mas, para isto, dentro das quatro linhas, os atletas também não deveriam ser transformados em gladiadores, em imperadores. Heróis ou réus. Nada disso. Deveriam ser vistos apenas como atletas, seres humanos dadivosos, dedicados a uma atividade profissional, lúdica e solidária. Pessoas habilidosas, artistas talentosos que se entregam de corpo e alma ao que fazem, Seres que desenham com os pés e voam com os braços abertos para muito além dos limites dos estádios. Pássaros, talvez, de tempos míticos.
Ao escrever estas linhas, naturalmente estou pensando nos “Meninos do Santos Futebol Clube”. Não só pelo sucesso da temporada no Campeonato Paulista, já em sua fase final, sob a orientação discreta e competente do técnico Dorival Jr., mas pelo estilo de jogo do grupo. Estes garotos jogam com o coração. Fazem ressurgir, em tempos de tragédias e violência, dentro e fora dos gramados, nas ruas e nos lares, nas cidades e nos campos, o que sempre foi a vocação do futebol brasileiro: a brincadeira, a molecagem sadia, o drible, a velocidade, a dança. A surpresa em cada lance. O espetáculo de jogar o jogo com a bola da vida. E, claro, a chuva de gols. Esse estilo bem poderia inaugurar uma nova tendência no futebol brasileiro. Tendência que privilegie a genialidade, a flexibilidade e a leveza, contra a força, a gritaria, as ofensas pessoais, carinhos, cama de gatos e ponta pés anti-esportivos. E, como estamos próximos da Copa do Mundo, nada mal se o Dunga, técnico da Seleção Brasileira de Futebol, cujo mérito todos reconhecemos, tivesse olhos para ver e sensibilidade para convocar dois craques –Neimar e Ganso – cuja bela atuação tem tudo a ver com a grandiosa diferença técnica, o sentido de conjunto e a união da gloriosa equipe santista. Vale ver jogar, quando olhos e coração vivem e vibram na mesma sintonia. O resultado só poderá ser a justa conquista. A merecida vitória.

quinta-feira, 25 de março de 2010


O olhar que caminha
O título não se quer original. Faz parte do texto “No mundo da leitura: a leitura do mundo”, primeiro capítulo do livro “O jornal como proposta pedagógica”, de Joana Cavalcanti. Não é, nem seria possível ser original em tempos de pós-modernidades, tardias ou não. Paulo Freire já ensinou bastante, com profunda sabedoria, sobre a arte de bem se ler o mundo.
O que há de original neste texto que ora se insinua sobre o vazio que se segue em linhas e signos imprevisíveis é a disposição do leitor em prosseguir na sua leitura. É o momento mesmo em que seus olhos deslizam à procura de algo perdido no tempo, memórias ancestrais, talvez. Terras devolutas, quem sabe. Terrenos baldios, desses atravancados de ferro-velho, caixas de papelão, livros deteriorados, pedaços de canos, restos de carros enferrujados, panelas furadas, todo tipo de rejeito da insaciável oficina de consumo. Desses lugares que só meninos e meninas encapetados, afeitos a molecagens, conseguem ver e explorar. Nesses territórios malditos não se entra de sapato novo e engraxados, de roupa domingueira, branca e alvejada. De grifes exclusivas e excludentes.
Se o leitor se deixar levar pelo prazer do caminho, certamente irá descobrir, pelo desejo e pelo gosto de caminhar, motivos de sobra para continuar sua viagem pelo texto-vida que aqui se estica mundo a fora. Terá rara oportunidade de descobrir e recriar“cores, formas e imagens” , de sentir “cheiros, sons”, de tocar de pele a pele “ texturas” e, se for mais ousado que a média dos mortais, de ler grafismos, gravetos, gramados, garranchos, tudo que sob algum aspecto se assemelha a palavras, ao rastro dos bichos, dos signos na paisagem extensa e infindável. Mais profundas e atraentes, entretanto, são as paisagens humanas. Nem sempre amenas e amorosas. Agrestes e espinhosas, traiçoeiras e abissais muitas vezes. Escorregadias e evasivas, quase sempre. Saber percebê-las e cativá-las é arte para poucos. São mais comuns, nesses jogos, a conquista e o domínio. As gerações mortas já o provaram.
O olhar que caminha desenha percursos os mais diversos, conforme seja seu caminhar ardoroso ou frio. Varia se se desenha em si mesmo, em ritmo de caminhada sossegada em alguma manhã de sol ou no final de uma tarde de verão. Também será diferente se for um olhar solitário ou povoado de companhias amigas e galantes. Faladoras. De cima de uma bicicleta, de dentro de um carro, do trem-de-ferro, no metrô ou de avião, certamente os olhares se mostram diferenciados tanto pela angulação, quanto pela rapidez de seu deslocamento. Cercado pelas águas , de dentro de um barco, os olhos podem colher, aram horizontes e lembranças vickings sob o ondeante azul do céu. Mediatizados ou condicionados pelos óculos, pela lente da máquina fotográfica ou da filmadora, os olhares perscrutam visões e enquadramentos ainda mais diferenciados.Olhares que espiam pelas frestas das janelas ou pelos buracos de fechadura, à moda mineira, por certo herança portuguesa, não merecem tanta consideração.
Produtivos são os olhares ciganos, desses que pousam. Descansam sobre paisagens inacessíveis. Apaixonam-se pelo que divisa entre o permanente e o transitório. Dizem que olhares se parecem com espelhos de água. Há os rasos e lamacentos, os límpidos e profundos. Transparentes. Há olhares misteriosos e vagos. Fisgam. Fingem não ver, para olhar mais dentro e inquisidor.
O olhar que caminha não caminha só. Abre janelas ao vento, de par em par, em sucessões indefinidas, concêntricas. Leve, leva consigo a cultura e a história de seu portador, de sua gente. Mais, carrega dentro de si toda a herança acumulada desde a origem da raça humana. O olhar que caminha não enxerga o mundo tal qual. Percebe-o, apenas, em sutis e vertiginosas representações. São leituras atravessadas por histórias, lutas, guerras, romances, aventuras, descobrimentos, sonhos, projetos, sofrimentos, colonizações. Existem olhares livres e ou colonizados. Livres são os olhares que caminham por caminhos espontaneamente traçados pelo prazer de caminhar. Como diz o poeta “pelo caminho que se faz, caminhando”
O olhar que caminha livremente descobre mundos igualmente livres e lindos. Mundos falidos, lidos a caminho, de ida e volta para a escola, de passagem pelas avenidas da cidade em sossego noturno. Apaziguada em seus afazeres e posses pelas rezas na igreja matriz. Mundos virtualmente lidos e vividos. Mundos de caminhos reais. Leituras mais que decifração dos tristes códigos gravados a ferro e fogo nas páginas dos livros, na pele, no coração dos homens e mulheres, sobreviventes destes tristes trópicos.
O olhar que caminha decifra, inventa, recria e constrói novos mundos. Mira o olhar do tigre e admira a paisagem que nele se reflete. Simplesmente caminha da mesma forma que o tigre e nele se espelha, apesar das bibliotecas e dos livros esquizofrênicos. Desconfie, portanto, de certos livros. O olhar que caminha ama o que lê. Vive o tempo necessário para as leituras possíveis. Caminha solto entre signos ou sobre as florestas incendiadas salta. Aqui o caminhante se insinua em sombras entes de estender seus olhos sobre mapas mais distantes descansam. Estica-se na sala sobre os livros de sua predileção. O mundo da leitura e a leitura do mundo se confundem. Misturam-se a caminho. O olhar brilha.

sábado, 13 de março de 2010



ave palavra nossa de cada dia
pássaros sem pausas
pastos auríferos
sob céu de seda brotam
manso mistério de gado
em descanso de sombrs buritis
só asas cantam
de silêncio em silêncio se imiscui
fora da paisagem a poesia voa

sexta-feira, 12 de março de 2010



nada

nada aprendemos com a morte
no Calvário
no Horto das Oliveiras
não há choro
nada é necessário

a morte dos pássaros e dos rios
das geleiras e florestas
a morte dos peixes
dos bichos de terra firme
nada nos ensina
nem mesmo a morte de nosso melhor amigo
de um parente mais próximo
dá-nos algo essencial
sobre a vida precária
a que em nós teima em resistir
por insistência do corpo provisório
castigo do espírito insaciável

à todas as mortes assistimos
impávidos e inertes
entre omissos e impotentes
mas avenidas e estradas
nos templos e cavernas
nas arenas e super-mercados
nas fábricas e estádios
como se assiste a um ritual de magia
a uma luta de serpentes
a um programa imbecil de TV

a notícia da morte por e-mail
se mistura a imagens de catástrofes
e “spans” de mal gosto
a comentários políticos e inócuos
sobre o cotidiano de um herói sem caráter
de um país sem imaginação

a tudo se iguala a Tal
sem rosto
em consórcios de consumo
sem perceber nos consumimos
em espetáculos sucessivos e recorrentes
sob rótulos e slogans
os mais diversos e eloqüentes

nada aprendemos com a morte
alheia
por mais estúpida e feia
estampada nos jornais
na Internet
com as mortificações globais
menos ainda aprendemos
com a mobilidade das nuvens
com o discurso dos sobreviventes
no percurso de nossa própria morte

nada aprendemos com a morte

domingo, 7 de março de 2010


No Dia Internacional da Mulher....resolvi brincar com o Chico Buarque e escrever uma cação como se...vejam como ficou:A melodia ainda está a caminho.

súplica

olhem para mim
vejam nos meus olhos
tudo o que existe
tudo o que puder
sentir
mais dentro de mim
onde ninguém vê
mora um querubim
dói só de pensar
na dor
no dom de ser mulher

vejam quem sou eu
vejam onde estou
o que se perdeu de mim
por onde passei
ninguém chorou
por mim na TV
eu cai na vida
sou a mãe da vida
estou sem saída
estou de partida
sem saber quem sou
para onde vou

olham para mim
como se eu fosse
sala de visita
capa de revista
um cartão postal
uma presa fácil
um falso rubi
ágil no que faço
dócil na conquista

sou admirada
mais que uma estrela
sou mais desejada
sou mal entendida
pelo que prometo
pelo que espero
pelo que revelo do amor
em nome da vida
ao longo da estrada
nas marcas de meu corpo
em meu próprio espelho
estou dividida

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010


A dengue pode matar
Leia , imprima e divulgue.

Arcos virou notícia
em tudo o que é lugar
eu não falo por malícia
o leitor vai concordar
o mosquito é atrevido
vive sempre escondido
a dengue pode matar

ta virando epidemia
pelo que ouvi falar
o bicho tem picardia
esperteza pra picar
e pior é traidor
adora vaso de flor
a dengue pode matar

tem cada mosquito gordo
que dá dó só de olhar
não trabalha e vive solto
rola de lá e pra cá
mosquito bem titulado
sem nunca ter estudado
a dengue pode matar

cada mosquito sisudo
até no modo de andar
perna fina barrigudo
custa se equilibrar
tem mosquito milionário
que pica só operário
a dengue pode matar

já vi mosquito agressor
em tudo quanto é lugar
tem mosquito professor
este nem é bom falar
pica sé pelo poder
pelo prazer de picar
a dengue pode matar

o mosquito é praga antiga
é só você pesquisar
mais velho quanto a intriga
bem mais velho que o mar
para tudo tem razão
adora flor de caixão
a dengue pode matar

é bicho de tradição
de poder familiar
só não pica a própria mão
pois seria suicidar
mosquito finge de amigo
é onde mora o perigo
a dengue pode matar

ele mora nos quintais
sabe a hora de voar
esconde nos matagais
nos jardins e no pomar
e pior é mentiroso
desleal e perigoso
a dengue pode matar

tem mosquito na igreja
na empresa e no bar
tem mosquito na pedreira
ou no que dela restar
mosquito vive de lucro
pica até cavalo xucro
a dengue pode matar

tem mosquito que sorri
na hora que via ferrar
eu mesmo juro já vi
até mosquito chorar
mosquito neo-liberal
mata mais do que punhal
a dengue pode matar

e tem mosquito na praça
no bairro chique a vagar
tem mosquito que só passa
pra poder alguém pegar
o mosquito é uma droga
vive até na sinagoga
a dengue pode matar

ele adora pneu velho
água limpa é o seu lar
não se olha no espelho
com medo de se assustar
e pior entra jogo
populista e demagogo
a dengue pode matar

ele mora em casa pobre
em mansão mora no ar
de tão falso se encobre
não dá nem pra acreditar
vive do sangue do povo
todo ano vem de novo
a dengue pode matar

tem mosquito ignorante
não sabe nem soletrar
usa apenas do rompante
para poder dominar
mosquito adora dejeto
adora roubar projeto
a dengue pode matar

tem mosquito candidato
a candidato a picar
adora pó de asfalto
mas se diz que é popular
já vi mosquito erudito
este é mais esquisito
a dengue pode matar

tem mosquito sem cultura
sem gosto sem paladar
tem mais bunda que cintura
que cabeça pra pensar
e se acha o maioral
na escala nacional
a dengue pode matar

tem até mosquito brega
não dá nem para escutar
tem mosquito que escorrega
onde acaba de cagar
mosquito é bicho tinhoso
predador mais perigoso
a dengue pode matar

por isto preste atenção
não se deixe acovardar
entre neste mutirão
que tudo pode mudar
combata este mosquito
feito as pragas do Egito
a dengue pode matar

Arcos merece carinho
merece mais se cuidar
não há de ser um bichinho
por destino ou por azar
que vai picar tanta gente
por a cidade doente
a dengue pode matar

vamos todos combater
com este bicho acabar
a vida há de vencer
há de florir e cantar
seu povo merece mais
merece respeito e paz
a dengue pode matar

por isto caro leitor
faça o verso vicejar
seja mais um bem-feitor
de mãos dadas vem lutar
não vote neste mosquito
atrevido e esquisito
a dengue pode matar

por isso caro leitor
não se deixe enganar
pelo zumbido o que for
seja gosto ou paladar
este mosquito moderno
se esconde atrás do terno
a dengue pode matar

e por aqui eu termino
meu cordel de convocar
seja idoso ou menino
todos vão participar
Arcos é civilizada
merece ser bem cuidada
a dengue pode matar

não quero ninguém de fora
a dengue tem que acabar
comece já e agora
a varrer e a limpar
vamos por fim à sujeira
viver não é brincadeira
a dengue pode matar

traga verdade e alegria
vamos com força esfregar
jogue água e poesia
pra tudo desinfetar
casa jardim coração
rua riacho emoção
a dengue pode matar

em nome da ecologia
do bom viver do lugar
em nome do dia a dia
mais feliz e salutar
vamos fazer nossa parte
viver a vida com arte
a dengue pode matar

a morte não é tão feia
como se pode pintar
pior é morrer na peia
sem poder espernear
eu prefiro a liberdade
de viver nesta cidade
a dengue pode matar

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010


o poema prefere
palavras curtas
de pele intacta
mínimas em tudo
sem asas
sem artefatos óbvios

ave e ar
água e pedra
palavras que
sob sol antigo
fervem se afloram

o poema prefere
palavras míticas

domingo, 31 de janeiro de 2010


Haiti

só quem viu
poderá nos dizer
quanta dor
quanto sofrimento
quanta solidão
só quem sentiu
tremer seu corpo
seu coração
pode chorar seu povo
merece mais
que o poder
merece amor
merece voz
todos os seres
aves e plantas
bichos e homens
ios e mares
merecem ter um país feliz

ver o vento da morte
passar
e chegar uma nova estação
e do fundo da terra brotar
a liberdade
e a esperança morar
em suas mãos

só quem viu o que eu vi
pode chorar por ti
só quem ouviu
pode cantar por ti
Haiti
Haiti Haiti
ai de ti
ai de ti
ai de todos nós


de comum insiste
a pedra na memória
o riachinho sujo
sobre o mesmo arqueado nome
a imaginária história
de tropeiros sem descanso
a fé missionária
veio de fora
de igual os fornos
e as forjas de sandice

de comum o que ainda resta
dos mortos no cemitério velho
alguns arcos de barris
o abismo entre os vivos
as rixas entre seus donos

arco íris por acaso ronda
o céu branco de fumaça
em uma incerta manhã
de sermão dominical
com sua ambígua
e desconfortável paz

de comum exibe a pedra
o face inculta do túmulo

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010


não é do poema
o que nele habita
homens sem rosto
tempo sem futuro
lugares sem marcas
não é do poema
tudo o que nele grita
o que em sua órbita vazia
grávido de angústia
sobre si gravita
no poema nada sequer
se prende por instinto
nada imita a vida
animal mais íntimo

não é do poema
a solidão da escrita

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

exorcizo pela escrita
no útero da paisagem
o que de mim
em mim mesmo ultrapassa
a parede da fala
o malefício do poema

prefiro ser vasto em sossego
sem saliência
liso de gravuras
mais que própria pedra de giz

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009


nada sei sobre o rosto de meu avô
se seus olhos eram negros ou azuis
nenhuma palavra de sua boca
nem um sorriso

nada me faria antever seu vulto
na penumbra
não fosse seu nome
minha única herança
alguns objetos já desaparecidos
dele me dizem
pendurados na parede invisível da sala
resistem ao tempo da provação
selam de silencio
a genealogia do poema
sem memória

nada sei sobre o rosto de meu avô

nenhum poema
é uma ilha
rodeada por palavras frias

Jão,Hoje, me vi pensando como seria viver em um país de leitores literários. Pode ser apenas um sonho, mas estaríamos em um lugar em que a tolerância seria melhor exercida. Praticar a tolerância é abrigar, com respeito, as divergências, atitude só viável quando estamos em liberdade. Desconfio que, com tolerância, conviver com as diferenças torna-se em encantamento. A escrita literária se configura quando o escritor rompe com o cotidiano da linguagem e deixa vir à tona toda sua diferença – e sem preconceitos. São antigas as questões que nos afligem: é o medo da morte, do abandono, da perda, do desencontro, da solidão, desejo de amar e ser amado. E, nas pausas estabelecidas entre essas nosssas faltas, carregamos grande vocação para a felicidade. O texto literário não nasce desacompanhado destes incômodos que suportamos vida afora. Mas temos o desejo de tratá-los com a elegância que a dignidade da consciência nos confere.A leitura literária, a mim me parece, promove em nós um desejo delicado de ver democratizada a razão. Passamos a escutar e compreender que o singular de cada um – homens e mulheres – é que determina sua forma de relação. Todo sujeito guarda bem dentro de si um outro mundo possível. Pela leitura literária esse anseio ganha corpo. É com esse universo secreto que a palavra literária quer travar a sua conversa. O texto literário nos chega sempre vestido de novas vestes para inaugurar este diálogo, e, ainda que sobre truncadas escolhas, também com muitas aberturas para diversas reflexões. E tudo a literatura realiza, de maneira intransferível, e segundo a experiência pessoal de cada leitor. Isto se faz claro quando diante de um texto nos confidenciamos: "ele falou antes de mim", ou "ele adivinhou o que eu queria dizer".João, o texto literário não ignora a metáfora. Reconhece sua força e possibilidade de acolher as diferenças. As metáforas tanto velam o que o autor tem a dizer como revelam os leitores diante de si mesmo. Duas faces tem, pois, a palavra literária e são elas que permitem ao leitor uma escolha. No texto literário autor e leitor se somam e uma terceira obra, que jamais será editada, se manifesta. A literatura, por dar a voz ao leitor, concorre para a sua autonomia. Outorga-lhe o direito de escolher o seu próprio destino. Por ser assim, João, a leitura literária cria uma relação de delicadeza entre homens e mulheres.Uma sociedade delicada luta pela igualdade dos direitos, repudia as injustiças, despreza os privilégios, rejeita a corrupção, confirma a liberdade como um direito que nascemos com ele. Para tanto, a literatura propõe novos discernimentos, opções mais críticas, alternativas criativas e confia no nosso poder de reinvenção. Pela leitura conferimos que a criatividade é inerente a todos nós. Pela leitura literária nos descobrimos capazes também de sonhar com outras realidades. Daí, compreender, com lucidez, que a metáfora, tão recorrente nos textos literários, é também uma figura política.Quando pensamos, João, em um Brasil Literário é por reconhecer o poder da literatura e sua função sensibilizadora e alteradora. Mas é preciso tomar cuidados. Numa sociedade consumista e sedutora, muitos são leitores para consumo externo. Lêem para garantir o poder, fazem da leitura um objeto de sedução. É preciso pensar o Brasil Literário com aquele leitor capaz de abrir-se para que a palavra literária se torne encarnada e que passe primeiro pelo consumo interno para, só depois, tornar-se ação.João, o Brasil Literário pode, em princípio, parecer uma utopia, mas por que não buscar realizá-la? Com meu abraço, sempre, Bartolomeu

Prezado Bartolomeu, li sua carta de um só fôlego. Nela reconheci o amigo dileto, o escritor delicado e cuidadoso e, em fusão vivenciada, o cidadão atento aos problemas e esperanças de um país admirável e povoado de contradições. Nada mais justo e oportuno um “movimento por um Brasil literário” nos moldes propostos em sua amável carta. Nada mais necessário aos escritores, aos leitores que escrevem, aos intelectuais de nosso tempo ( e, hoje, mais do que nunca, de todos os lugares) essa retomada de c consciência , em uma perspectiva crítica , mas humilde, da importância da literatura e da leitura no processo de construção/reconstrução/reinvenção deste Brasil que amamos e, por isto mesmos, questionamos.
Indispensável dizer sobre o caráter sincero e brilhante de seus conceitos e análises sobe o texto literário. A idéia da metáfora como força política ( não apenas como figura de linguagem, como adorno ou subterfúgio) é fundamental ao ofício, sacro-ofício ou sacrificio literário. Mais que uma carta em defesa da Literatura procurei entender suas belas palavras como um alerta aos escritores, sejam os neófitos, seja os veteranos, consagrados, reconhecidos ou anônimos...a todos que labutam diariamente com a palavra e delas se alimentam,,mais espiritual do que materialmente. Alerta, no sentido de que todos devemos
caminhar em direção à solidariedade, à comunhão e à comunicação, sem cair na armadilha da globalização, no fetichismo da tecnologia e no isolamento egoísta e consumista propagado pelo neo-libralismo.
Desculpe-me se não entendi o que escreveu como devia, mas como leitor, limitado sob muitos aspectos, não posso ir além do que sou capaz rss..
Bartolomeu, li e repassei sua carta para compartilhar suas iéias e ideais com pessoas que sei interessadas e Literatura/leitura e com os destinos e desatinos brasileiros.Confesso que ,desde que tive a honra de trabalhar sob sua orientação na Fundação Clovis Salgado –Palácio das Artes, quando passei a conheê-lo de mais perto, tenho procurado aprender com cada linha que você escreve. É um privilégio ter amigos de seu porte e humildade.
De minha parte, coloco-me à sua disposição para o que eu puder contribuir ,mais diretamente para que este movimento ganhe força e seja vitorioso.
Carinhosamente,
João

de pássaro
e tigre
de cisne
e arco íris
o poema se nulti faz
no ar
desaparece

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009



Reflexão

há mais de dois mil anos
o Natal se repete
repleto de luzes e enganos
a mesma cena diária
a mesma fila de indigntes
a mesma festa literária
dita de modos diferentes

debaixo de árvores coloridas
repousam gordos mendigos
objetos de vidro
amigos incultos
inimigos declarados
senhores falidos
senhoras faladas
mulheres de luto
cauxas e latas
anjos de pelúcia
filhos descontentes
sonhos perdidos
livros não lidos
fotos indecentes
o planeta ferido
animais doentes
ovelhas e burros
lobos e serpentes

os dias se evaporam
vazios
mortos
violentos
tudo em tudo se reflete
tudo se embrulha
de confeitos e confetes
a estampa de luxo
o estampido do buxo
o burrinho de argila
o menino Jesus
seu pai velhinho
sua mãe tranqüila
com o mesmo papel de presente

um moleque de rua nasce a meia noite
sob o acoite do pai
encharcado de aguardente
sob os olhos da estrela guia
o galo eletrônico
entoa hinos natalinos
com rock sinos pagodes e axés
a chuva cai impenitente
Deus chora
o sino toca
o carro passa
o boi passa
o tempo avisa
o trenó voa
a sirene apita
todo ano se repete o sacrifico divino
indefinidamente

a vida inútil nuvem
cego ritual de sempre
segue seu calendário urgente

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


universal
para todos que falo
para todos os lugares
todos os tempos
de alegria ou de sombras
falo de palavra livre
de vento no deserto
palavras de águas amazônicas
de aves sem pouso
cidades mortas
animais em extinção

assim são minhas palavras em ruínas
desmedidas e musicais
de pedra em repouso
mesmo quando as montanhas
de abusos e absurdos
se desabam em nuvens de silêncio e de terror
e as geleiras se derretem
contra a ignorância
a ira e a arrogância dos homens sem pares

falo de fala amável e necessária
do que me é dado ver e sentir
do que me é dado sofrer e sorrir
falo do que de humano existe
em todos os homens
de todos os tempos e lugares
para que vida se cumpra
e floresça em sua plenitude
no coração da humanidade

quem tem ouvidos que ouça
o poema da alegria
da dor da arte universal
de minha parte esqueço o som vazio
a sinfonia de minha própria boca

domingo, 29 de novembro de 2009

Cecília

assim diria Cecília
eom sua delicadeza
tranqüila mais que um lago
em uma tarde sem vento
mais calma que a tristeza
mais triste que a beleza
de seu rosto irrequieto
assim diria a poeta
das coisas mais pequeninas
das magias mas secretas
atrás das portas fechadas
onde as palavras florescem

a vida parece impossível
no coração do
universo
se não for com alegria
pela palavra tocada
se não for toda bebida
sobre toalha bordada
se a vida não for sentida
repartida e bem cuidada
se não for vida incompleta
se não for reinventada

j

sábado, 28 de novembro de 2009


o silêncio é de ouro
ensina o professor
o vigário
a família zelosa
em nome da ordem
e dos bons costumes
da vida bem comportada
sem eira nem beira

quem fala muito
dá bom dia cavalo
repete em coro a gente mineira
mesmo assim falo
escrevo
resisto
grito
protesto
proclamo palavras de prata
silêncio demais adoece
anoitece a casa
mofa as paredes do espírito
amolece a carne
denuncia os sigilos do corpo

silêncio demais apodrece a alma