Triálogo I
Do prazer de voar com o livro
ao imaginário museu de tudo
A vantagem de vir ao mundo, após milênios de história, é já encontrarmos o mundo bastante modificado pelo engenho e arte do homem. Impossível seria enumerar essas modificações. Além do fogo, das pirâmides e dos Jardins Suspensos da Babilônia, pode-se, sem medo de erro, incluir a água potável, o avião, a penicilina na galeria das invenções. A metafísica, a literatura – a poesia - a física mereceriam lugar de destaque. Para os mais radicais e intolerantes, esclareço que usei a palavra metafísica como metáfora de Filosofia. Sei que não se trata de um conceito exato, mas como não posso detalhar, aqui, os meandros da história do pensamento humano, desde antes dos gregos, resolvi correr o risco da imprecisão. Funciona como um buraco para puxar assunto. Nem sempre dá certo, mas...
Para simplificar talvez fosse aconselhável buscar a raiz de tudo o mais.Ressaltaria, neste museu, apenas a palavra, a linguagem, os signos e as imagens de toda a arte e conhecimento construídos pela humanidade. Incluindo aqui as ruínas e as desconstruções. O que já foi feito e o já desfeito. O que existe, teima em resistir. Aquilo que existirá e o que será impedido de existir. Seria justa e razoável esta opção, pois, sem dúvida, a linguagem está na origem e na trajetória de toda a História do homem. Não a linguagem abstrata, mas o que desta linguagem floresceu dentro e fora do coração do homem.
Que o leitor não se zangue pela minha última escolha. Junto com as cerâmicas primitivas, as telas dos pintores e dos poemas e músicas , de todas a s raças e gerações, colocaria sob luz clara um objeto admirável e único:o livro. Pasmem aqueles que não descobriram, ainda, o sagrado hábito da leitura. Aqueles que, ao invés de bibliotecas, constroem suntuosas garagens. Sei que muitos pesquisadores e futurólogos alardeiam a morte do livro, o seu fim como instrumento e objeto de mediação das trocas, do prazer e do conhecimento. Ao contrário, imagino que o ambiente contemporâneo é espaço fértil para abrigar todas as formas de fazer e de saber. Cenário móvel capaz de estimular a convivência dialogada entre diferenças e pluralidades. No campo midiático, a despeito de suas especificidades, não acontece de outra maneira. Veja um exemplo singelo. Não estou aqui, agora, escrevendo a favor do livro, um texto no computador que será veiculado pela rede e quantos livros já surgiram e surgem a todo instante falando sobre a sociedade da informação e do conhecimento.
Ah! O museu. Boa lembrança esta de se criar um espaço bem atraente para se colocar nele todos os depoimentos e argumentos escritos ou gravados a favor deste objeto sedutor, ao mesmo tempo, esquivo e silencioso. Em defesa do livro saíram filósofos,escritores, cientistas, poetas, compositores. Juntos, formariam um belo acervo.
Crítica arguta, Susan Sontag observa que entre livro e leitor há uma relação de desejo. Além do conteúdo, da edição, da encadernação, da ilustração ou do papel, observa a ensaísta/leitora/autora, o livro exerce sobre os seus leitores aquilo a que poderíamos chamar uma verdadeira aeração física. É, portanto, objeto de cuidadoso carinho. Falando sobre o ato de ler, Michel Foucault coloca o livro como o ponto onde se inicia o processo de transformação e de enriquecimento do leitor “Trata-se, particularmente, de interrogar nossa relação com o livro, com a obra”.
Se se considerar o livro como a imagem que comporta e transporta a linguagem, é justo apropriar-se do que fala Victor Chklovski , aludindo a um tipo especial de imagem relacionada à arte: “o objetivo da imagem não é tornar mais próxima de nossa compreensão a significação que ela traz, mas criar uma percepção particular do objeto, criar uma visão, e não o seu reconhecimento”
Tudo sugere que o livro, a despeito de sua grandeza na constelação do saber, não existe por si só. Dentro e em torno dele gravitam não só idéias e imagens verbais e não-verbais, mas mundos reais e imaginários, personagens e geografias, autores, editores, leitores. Com estes últimos o livro e a leitura representam possibilidade reais para se criar laços através de uma relação de prazer e de liberdade. Os homens passam, o livro-pássaro,poderíamos parafraseando, reverenciar o para sempre adorável Mário Quintana. Para Borges, o encontro entre o livro e o leitor dá origem a um “faro estético”.
“Mudamos incessantemente e é possível afirmar, com Borges, que cada leitura de um livro, que cada releitura, cada recordação dessa releitura renovam o texto. Também o texto é o mutável rio de Heráclito”.
E Ramón Gómez de La Serna, nas suas Greguerías dizia:?O livro é um pássaro com mais de cem asas para voar?. Temos apenas de saber potenciar o seu vôo... Este o desafio: criar asas feitas livros e voar com eles, sem perder a direção da Terra. Da linguagem, a casa de todos, do mesmo e infinito livro.
sábado, 17 de fevereiro de 2007
Triálogo II
Sua excelência o leitor ou
os segredos da boa leitura
Quais os segredos da boa leitura? Você considera-se um bom leitor? Dar respostas satisfatórias a estas questões é desafio sem fim. Na ambiente acadêmico, lugar de vaidosas disputas, elas causam controvérsias e discórdias. Narizes torcidos! Entre intelectuais e artistas das diversas áreas, provocam apaixonados debates e confusão. Quanto ao leitor, ou melhor, aos leitores, já que existe uma gama de classificações desse animal exótico e fugidio, penso que estão pouco se lixando para essas querelas. O problema é que os segredos da boa leitura envolvem diretamente esta figura polêmica e invisível, heterogênea e dispersa. Não raro, dispersivas.
Não quero ser chato, mas antes de passar a frente, de tatear os meandros da leitura, gostaria de saber em que condições você etsá lendo estas linhas,m agora. Estaria confortavelmente acomodado em uma destas, que mais parecem camas. Ou estaria mesmo deitado? Vou ariscar um palpite: excelentíssimo leitor deverá estar em algum bosque imaginário. Sozinho. Embebido de pensamentos e imagens que nunca virão à luz. De pé, na fila de algum destes desaforados bancos.Não, isto não desejaria jamais para nenhum leitor, mesmo aquele mais ranzinza e detalhista. Esteja onde, como e com quem estiver quero lhe dizer mais uma vez que sem você todo texto escrito, independente do suporte, não passaria de um defunto vencido. Não precisa ficar intimado com meus elogios. É uma questão de justiça, uma verdade imposta pela realidade. Não lhe faço nenhum favor, portanto! E tem mais não estou me referindo só a esta simpática pessoa com quem estou conversando, agora, mas do outro leitor, de seu duplo, um personagem literário, co-participe da construção deste texto que está demorando a se desenrolar. O jogo, como se vê, é mais interessante e complicado. Um quebra cabeça sem fim.
Você, meu amigo, se me permite trata-lo assim, apesar de nossa tão curta convivência, é deveras importante. Importante e misterioso. Tão misterioso que os estudioso, os ditos cientistas, com todo o meu respeito, não conseguem entrar em um acordo quanto a sua identidade. Daí que para lhe dar um nome, fazerem uma denominação exata e digna de sua magnitude, inventam muitos apelidos, para dizer praticamente o mesmo fenômeno. Você pode se situar, por exemplo, entre os leitores virtuais, leitores ideais, leitores-modelo, superleitores, leitores projetados, leitores informados, arquileitores, leitores implícitos, metaleitores... Gostou? Se você me acompanhou até aqui por curiosidade, consideração ou por puro prazer, arisco lhe dar mais um epíteto: que tal leitor-paciente, “leitor-fashion”? Em qual destas classificações você acha que se enquadra? Não, não precisa me responder. Aqui, toda a decisão é sua. Com e em todos os sentidos.
Neste momento, no ato mesmo da leitura deste texto/duscurso/midiático o que estararia pensando o leito? O meu leitor, se assim posso dizer. Estaria sério? Atento? Interessado ou doido para chegar ao final do caminho? Curioso para saber aonde, após tantas encruzilhadas, pistas e atalhos, essas palavras em rede pretendem levá-lo. Não se iluda com as promessas que nem cheguei a formular ao longo deste escrito, pois, podem não passar de moinhos de vento, de conjecturas. Nada que mereça crédito incondicional. Antes duvide. Pergunte. Levante. Vá ao dicionário. Ao banheiro, se precisar. Tome café. Descanse os olhos. Olhe pela janela da sala, do texto. Se necessário use faca, estilete, canivete, mas remova os entulhos, levante as linhas e observe bem entre as malhas da rede. Discuta o que aqui não se mostra com sua esposa, irmão, namorada, amigos. Se estiver sozinho, não se perturbe. Discuta com você mesmo. Seja exigente. Não continue aí feito uma taça de cristal à espera de bom vinho. Entregue-se à leitura. Embriague-se. Deixe-se prender. Voe se assim o desejar.
Os segredos da boa leitura, se você esta me ouvido e tentando-me, sobretudo, naqueles pontos sobre os quais desentendemos, não existem. Pelo menos como em um catálogo de endereços, com seguras referências. Os segredos da boa leitura estão no ato de ler. No processo de caminhar, nadar, pedalar voar sobre a superfície lisa ou acidentada da linguagem e da língua, de espectros diversos e enigmáticos. Talvez por isso é que certa vez escrevi: a língua pátria me manda/a lingua pétrea me funde/a língua mátira me tece/a língua rosea me fura
a língua amada me lambe/a língua viva me mata/a língua morta me chama/a língua me deixa à míngua/e vela me venda me ilude /
a muitas milhas de mim/outras línguas me procuram. Língua e linguagem que possibilita a construção de mundos, nossa própria – imprópria algumas vezes - construção e reconstrução diária e permanente. Tornamos-nos homem, ser de consciência, equivale a dizer, ético, pela linguagem. Não só pelo diálogo amoroso, mas também pelos conflitos que ela gera. Não só pelas contradições engendradas no seu útero, mas, sobretudo, pelo consenso e possibilidades de superação que a linguagem da vida traz em si.
Ja está cansado, o leitor? Esse leitor que para Proust O leitor, para Proust, era um amante dos livros, da boa leitura. Espécie em extinção, que tudo pretere pelo prazer de página manchada de letras e ilustrações. De alguma, qualquer superfície marcada pela palavra oral e ou escrita, cantada ou declamada. Fixa ou animada. A linguagem é um cinema, auto-estrada de mão dupla. Seja devorada silenciosa, sinuosamente. Em solidão. Mas, adverte o escritor, “:...se nos acontece ainda hoje folhearmos esses livros de outrora, já não é senão como simples calendários que guardamos dos dias perdidos, com a esperança de ver refletidas sobre as páginas as habitações e os lagos que não existem mais”.
Em breve chegaremos ao final deste texto se é que algum texto tem fim. Cansado estou eu que, depois de concluir essa conversa silenciosa, perdi boa parte e, aqui estou, de novo, reescrevendo o já descrito. E, da mesma maneira que não se faz duas leituras iguais, não se escreve-reewscreve um texto de maneira semelhante ao original, jogado no lixo ou perdido por uma dessas perversões da tecnologia.
Você pode estranhar, mas a leitura, apesar da novidade contemporâneas, ou por causa delas, possui algo de mágico. De magia demasiadamente humana, penso! Seres de leitura somos condenado-abençoados a tudo ler. Decifrar, quem sabe a vida. O escritor João, o outro, Guimarães, mágico decifrador dos sertões de Minas e das mimosas Rosas da linguagem diz: "A vida também é para ser lida". E sendo o viver muito perigoso, segundo o João, posso intuir: ler, de leitura viva e atenta, é perigosa empresa. Sertão se afunda. Abre-se em buritis e rios do sem sentido. Oferece-se à leitura. Tudo se lê.Eis o engenho e a maldição do homem. O escritor e poeta Flávio Carneiro salienta: “Pode-se ler um romance ou um poema tanto quanto se pode ler no rosto de alguém um traço de dor, um sorriso, ou uma roupa, o céu, um jardim". Tudo são “caminhos que se bifurcam”, planetária biblioteca cósmica. Tudo de signos e silêncio se tece. O sertão engole o sol.
Sua excelência o leitor ou
os segredos da boa leitura
Quais os segredos da boa leitura? Você considera-se um bom leitor? Dar respostas satisfatórias a estas questões é desafio sem fim. Na ambiente acadêmico, lugar de vaidosas disputas, elas causam controvérsias e discórdias. Narizes torcidos! Entre intelectuais e artistas das diversas áreas, provocam apaixonados debates e confusão. Quanto ao leitor, ou melhor, aos leitores, já que existe uma gama de classificações desse animal exótico e fugidio, penso que estão pouco se lixando para essas querelas. O problema é que os segredos da boa leitura envolvem diretamente esta figura polêmica e invisível, heterogênea e dispersa. Não raro, dispersivas.
Não quero ser chato, mas antes de passar a frente, de tatear os meandros da leitura, gostaria de saber em que condições você etsá lendo estas linhas,m agora. Estaria confortavelmente acomodado em uma destas, que mais parecem camas. Ou estaria mesmo deitado? Vou ariscar um palpite: excelentíssimo leitor deverá estar em algum bosque imaginário. Sozinho. Embebido de pensamentos e imagens que nunca virão à luz. De pé, na fila de algum destes desaforados bancos.Não, isto não desejaria jamais para nenhum leitor, mesmo aquele mais ranzinza e detalhista. Esteja onde, como e com quem estiver quero lhe dizer mais uma vez que sem você todo texto escrito, independente do suporte, não passaria de um defunto vencido. Não precisa ficar intimado com meus elogios. É uma questão de justiça, uma verdade imposta pela realidade. Não lhe faço nenhum favor, portanto! E tem mais não estou me referindo só a esta simpática pessoa com quem estou conversando, agora, mas do outro leitor, de seu duplo, um personagem literário, co-participe da construção deste texto que está demorando a se desenrolar. O jogo, como se vê, é mais interessante e complicado. Um quebra cabeça sem fim.
Você, meu amigo, se me permite trata-lo assim, apesar de nossa tão curta convivência, é deveras importante. Importante e misterioso. Tão misterioso que os estudioso, os ditos cientistas, com todo o meu respeito, não conseguem entrar em um acordo quanto a sua identidade. Daí que para lhe dar um nome, fazerem uma denominação exata e digna de sua magnitude, inventam muitos apelidos, para dizer praticamente o mesmo fenômeno. Você pode se situar, por exemplo, entre os leitores virtuais, leitores ideais, leitores-modelo, superleitores, leitores projetados, leitores informados, arquileitores, leitores implícitos, metaleitores... Gostou? Se você me acompanhou até aqui por curiosidade, consideração ou por puro prazer, arisco lhe dar mais um epíteto: que tal leitor-paciente, “leitor-fashion”? Em qual destas classificações você acha que se enquadra? Não, não precisa me responder. Aqui, toda a decisão é sua. Com e em todos os sentidos.
Neste momento, no ato mesmo da leitura deste texto/duscurso/midiático o que estararia pensando o leito? O meu leitor, se assim posso dizer. Estaria sério? Atento? Interessado ou doido para chegar ao final do caminho? Curioso para saber aonde, após tantas encruzilhadas, pistas e atalhos, essas palavras em rede pretendem levá-lo. Não se iluda com as promessas que nem cheguei a formular ao longo deste escrito, pois, podem não passar de moinhos de vento, de conjecturas. Nada que mereça crédito incondicional. Antes duvide. Pergunte. Levante. Vá ao dicionário. Ao banheiro, se precisar. Tome café. Descanse os olhos. Olhe pela janela da sala, do texto. Se necessário use faca, estilete, canivete, mas remova os entulhos, levante as linhas e observe bem entre as malhas da rede. Discuta o que aqui não se mostra com sua esposa, irmão, namorada, amigos. Se estiver sozinho, não se perturbe. Discuta com você mesmo. Seja exigente. Não continue aí feito uma taça de cristal à espera de bom vinho. Entregue-se à leitura. Embriague-se. Deixe-se prender. Voe se assim o desejar.
Os segredos da boa leitura, se você esta me ouvido e tentando-me, sobretudo, naqueles pontos sobre os quais desentendemos, não existem. Pelo menos como em um catálogo de endereços, com seguras referências. Os segredos da boa leitura estão no ato de ler. No processo de caminhar, nadar, pedalar voar sobre a superfície lisa ou acidentada da linguagem e da língua, de espectros diversos e enigmáticos. Talvez por isso é que certa vez escrevi: a língua pátria me manda/a lingua pétrea me funde/a língua mátira me tece/a língua rosea me fura
a língua amada me lambe/a língua viva me mata/a língua morta me chama/a língua me deixa à míngua/e vela me venda me ilude /
a muitas milhas de mim/outras línguas me procuram. Língua e linguagem que possibilita a construção de mundos, nossa própria – imprópria algumas vezes - construção e reconstrução diária e permanente. Tornamos-nos homem, ser de consciência, equivale a dizer, ético, pela linguagem. Não só pelo diálogo amoroso, mas também pelos conflitos que ela gera. Não só pelas contradições engendradas no seu útero, mas, sobretudo, pelo consenso e possibilidades de superação que a linguagem da vida traz em si.
Ja está cansado, o leitor? Esse leitor que para Proust O leitor, para Proust, era um amante dos livros, da boa leitura. Espécie em extinção, que tudo pretere pelo prazer de página manchada de letras e ilustrações. De alguma, qualquer superfície marcada pela palavra oral e ou escrita, cantada ou declamada. Fixa ou animada. A linguagem é um cinema, auto-estrada de mão dupla. Seja devorada silenciosa, sinuosamente. Em solidão. Mas, adverte o escritor, “:...se nos acontece ainda hoje folhearmos esses livros de outrora, já não é senão como simples calendários que guardamos dos dias perdidos, com a esperança de ver refletidas sobre as páginas as habitações e os lagos que não existem mais”.
Em breve chegaremos ao final deste texto se é que algum texto tem fim. Cansado estou eu que, depois de concluir essa conversa silenciosa, perdi boa parte e, aqui estou, de novo, reescrevendo o já descrito. E, da mesma maneira que não se faz duas leituras iguais, não se escreve-reewscreve um texto de maneira semelhante ao original, jogado no lixo ou perdido por uma dessas perversões da tecnologia.
Você pode estranhar, mas a leitura, apesar da novidade contemporâneas, ou por causa delas, possui algo de mágico. De magia demasiadamente humana, penso! Seres de leitura somos condenado-abençoados a tudo ler. Decifrar, quem sabe a vida. O escritor João, o outro, Guimarães, mágico decifrador dos sertões de Minas e das mimosas Rosas da linguagem diz: "A vida também é para ser lida". E sendo o viver muito perigoso, segundo o João, posso intuir: ler, de leitura viva e atenta, é perigosa empresa. Sertão se afunda. Abre-se em buritis e rios do sem sentido. Oferece-se à leitura. Tudo se lê.Eis o engenho e a maldição do homem. O escritor e poeta Flávio Carneiro salienta: “Pode-se ler um romance ou um poema tanto quanto se pode ler no rosto de alguém um traço de dor, um sorriso, ou uma roupa, o céu, um jardim". Tudo são “caminhos que se bifurcam”, planetária biblioteca cósmica. Tudo de signos e silêncio se tece. O sertão engole o sol.
Tiáogo III
Ler e amar exige paixão
João Evangelista Rodrigues
A leitura e o amor exigem posições sempre novas e confortáveis. Exige paixão. Não se lê e não se ama como se estivesse comendo um “cachorro quente” em um fim de rua de subúrbio. Pensando melhor, confortável é pouco. As posições devem ser agradáveis. Sugestivas e prazerosas. É isto mesmo que estou querendo dizer. Você, leitor experiente e sensível, acertou em cheio! O ato de ler e o de amar têm em comum a paixão e o deleite. Ler sem paixão seria assim como fazer amor sem prazer. Sem desejo. Compulsoriamente.
Dois motivos levaram-me a escrever as linhas acima. O primeiro deles foi a modo que vi um adolescente lendo uma revista de variedades, que ficava entre xérox de livros didáticos. Textos extraídos da Internet e um monte de apostilas rabiscadas. O segundo motivo e, este me veio à tona, ao lembrar-me de como Ítalo Calvino age, ao transformar em sua narrativa, estilística e estrategicamente, o leitor concreto em um personagem ficcional, imaginário. Portanto, no romance pós-moderno, de raízes borgianas, os dois leitores são, ao mesmo tempo, um e outro. Assim, para o leitor que lê o livro, para o leitor que está lendo este pequeno ensaio sobre o ato de ler, não será fácil distinguir , com nitidez, o lugar onde ele realmente vive e se move: na vida real, com seus condicionamentos e aborrecimentos concretos, ou em um mundo virtual, ficcional. Em caso de dúvida, o leitor terá que resolver sozinho, esta “parada”. A bem da verdade, sozinho, de todo, não. Ele e o texto que leva nas mãos. Seja o livro de Calvino – se você ainda não leu, vale a pena ir ao encontro dele – ou em companhia deste rápido caso de amor com as palavras derramadas aqui, carinhosamente.
Ah, o adolescente, você ainda se lembra dele? Claro, ele estava lendo uma revista de variedades, de tal modo extravagante, que acabou por me chamar a atenção. Não que quisesse intrometer-me nos hábitos do moço, que mal conhecia. A revista estava longe dos olhos, no chão, entre as pernas, em meio a uma bagunça visual e sonora formada por CDs, DVDs, celular, garfo, prato com resto de macarrão, xícaras e copos de plásticos sujos de refrigerantes. O caos era maior porque o som e televisão do quarto estavam ligados ao mesmo tempo. No primeiro, tocava, a todo volume, uma destas despretensiosas “baladinhas” americanas, sem estilo nem personalidade. Na TV, o noticiário do trágico desabamento que abalou a cidade de São Paulo e sensibilizou todo o país. Para completar, a garota que morava no apartamento da frente esganiçava, frenética, o nome de nosso protagonista. Pela insistência e altura dos gritos, ela precisava falar com ele qualquer forma. Nosso leitor, por sua vez, não estava nem aí, para nenhuma destas coisas.
Explicados os motivos conscientes, que me levaram a este texto, deixo o leitor em paz para que ele desfrute o pouco que falta destas páginas.
Assim inicia o romance do italiano, nascido em Cuba: “ Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: "Não, não quero ver televisão!". Se não ouvirem, levante a voz: "Estou lendo! Não quero ser perturbado!".
O adolescente, sob luz fraca e nebulosa, olhava desinteressadamente, para a revista. A mocinha quase se rasgava de tanta gritaria. Nunca se viu coisa igual. Queria mostrar o novo modelo de seu celular seu colega de faculdade. Nosso jovem leitor, por seu turno, seria incapaz de relatar, de repetir ao menos, uma só passagem da leitura. Mal decorou a cor, o nome da figura principal e a marca da grife que, orgulhosamente, exibia na parte traseira das calças.
Escolher a posição correta par ler exige espontaneidade e criatividade. Em pouco tempo, o corpo se cansa. Acomoda-se. A leitura, por mais interessante ou necessária, em alguns casos, torna-se pesada, chata, cansativa. O leitor acaba se dispersando e lá se foi o essencial do que lera.
Para seu leitor/protagonista, para o leitor concreto, já com o livro dele entre as mãos, Calvino sugere: “Escolha a posição mais cômoda: sentado, estendido, encolhido, deitado”. Deitado de costas, de lado, de bruços. Numa poltrona, num sofá, numa cadeira de balanço, numa espreguiçadeira, num pufe. Numa rede, se tiver uma. Na cama, naturalmente, ou até debaixo das cobertas. Pode também ficar de cabeça para baixo, em posição de ioga. Com o livro virado, é claro.
A esta altura dos acontecimentos, a revista ficou jogada entre os variados objetos. Desprezada. Entretanto, o autor de “Se o viajante...” não perde a esperança em seu leitor, no caso , o nosso, e oferece-lhe mais uma sugestiva opção, em tom de lúdica ironia: “manter os pés levantados é condição fundamental para desfrutar a leitura”.E completa, “regule a luz para que ela não lhe canse a vista. Faça isso agora, porque, logo que mergulhar na leitura, não haverá meio de mover-se.
O ato de ler mereceu a atenção de muitos outros escritores/leitores, antigos e contemporâneos. Machado de Assis era mestre na arte de envolver o leitor de seus romances, contos e poemas.
Outro, foi Rilke, o autor de “Carta a um jovem poeta”. Profundo e sensível, como era, escreveu: “Quero viver como se o meu tempo fosse ilimitado”. Quero me
recolher, me retirar das ocupações efêmeras. “Mas ouço vozes, vozes benevolentes, passos que se aproximam e minhas portas se abrem”.
O amor e a leitura se confundem no prazer das posições que o leitor/amante escolhe para ler e para amar. Na forma como a paixão se expressa e alarga o universo do leitor, real ou ficcional, no movimento íntimo e infinito das letras corporificadas e eternizadas pelo corpo e pelo espírito do homem. Gestos de leitura do amor. Ato amoroso de ler. Em todos os casos, a melhor escolha será sempre a do leitor.
Ler e amar exige paixão
João Evangelista Rodrigues
A leitura e o amor exigem posições sempre novas e confortáveis. Exige paixão. Não se lê e não se ama como se estivesse comendo um “cachorro quente” em um fim de rua de subúrbio. Pensando melhor, confortável é pouco. As posições devem ser agradáveis. Sugestivas e prazerosas. É isto mesmo que estou querendo dizer. Você, leitor experiente e sensível, acertou em cheio! O ato de ler e o de amar têm em comum a paixão e o deleite. Ler sem paixão seria assim como fazer amor sem prazer. Sem desejo. Compulsoriamente.
Dois motivos levaram-me a escrever as linhas acima. O primeiro deles foi a modo que vi um adolescente lendo uma revista de variedades, que ficava entre xérox de livros didáticos. Textos extraídos da Internet e um monte de apostilas rabiscadas. O segundo motivo e, este me veio à tona, ao lembrar-me de como Ítalo Calvino age, ao transformar em sua narrativa, estilística e estrategicamente, o leitor concreto em um personagem ficcional, imaginário. Portanto, no romance pós-moderno, de raízes borgianas, os dois leitores são, ao mesmo tempo, um e outro. Assim, para o leitor que lê o livro, para o leitor que está lendo este pequeno ensaio sobre o ato de ler, não será fácil distinguir , com nitidez, o lugar onde ele realmente vive e se move: na vida real, com seus condicionamentos e aborrecimentos concretos, ou em um mundo virtual, ficcional. Em caso de dúvida, o leitor terá que resolver sozinho, esta “parada”. A bem da verdade, sozinho, de todo, não. Ele e o texto que leva nas mãos. Seja o livro de Calvino – se você ainda não leu, vale a pena ir ao encontro dele – ou em companhia deste rápido caso de amor com as palavras derramadas aqui, carinhosamente.
Ah, o adolescente, você ainda se lembra dele? Claro, ele estava lendo uma revista de variedades, de tal modo extravagante, que acabou por me chamar a atenção. Não que quisesse intrometer-me nos hábitos do moço, que mal conhecia. A revista estava longe dos olhos, no chão, entre as pernas, em meio a uma bagunça visual e sonora formada por CDs, DVDs, celular, garfo, prato com resto de macarrão, xícaras e copos de plásticos sujos de refrigerantes. O caos era maior porque o som e televisão do quarto estavam ligados ao mesmo tempo. No primeiro, tocava, a todo volume, uma destas despretensiosas “baladinhas” americanas, sem estilo nem personalidade. Na TV, o noticiário do trágico desabamento que abalou a cidade de São Paulo e sensibilizou todo o país. Para completar, a garota que morava no apartamento da frente esganiçava, frenética, o nome de nosso protagonista. Pela insistência e altura dos gritos, ela precisava falar com ele qualquer forma. Nosso leitor, por sua vez, não estava nem aí, para nenhuma destas coisas.
Explicados os motivos conscientes, que me levaram a este texto, deixo o leitor em paz para que ele desfrute o pouco que falta destas páginas.
Assim inicia o romance do italiano, nascido em Cuba: “ Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: "Não, não quero ver televisão!". Se não ouvirem, levante a voz: "Estou lendo! Não quero ser perturbado!".
O adolescente, sob luz fraca e nebulosa, olhava desinteressadamente, para a revista. A mocinha quase se rasgava de tanta gritaria. Nunca se viu coisa igual. Queria mostrar o novo modelo de seu celular seu colega de faculdade. Nosso jovem leitor, por seu turno, seria incapaz de relatar, de repetir ao menos, uma só passagem da leitura. Mal decorou a cor, o nome da figura principal e a marca da grife que, orgulhosamente, exibia na parte traseira das calças.
Escolher a posição correta par ler exige espontaneidade e criatividade. Em pouco tempo, o corpo se cansa. Acomoda-se. A leitura, por mais interessante ou necessária, em alguns casos, torna-se pesada, chata, cansativa. O leitor acaba se dispersando e lá se foi o essencial do que lera.
Para seu leitor/protagonista, para o leitor concreto, já com o livro dele entre as mãos, Calvino sugere: “Escolha a posição mais cômoda: sentado, estendido, encolhido, deitado”. Deitado de costas, de lado, de bruços. Numa poltrona, num sofá, numa cadeira de balanço, numa espreguiçadeira, num pufe. Numa rede, se tiver uma. Na cama, naturalmente, ou até debaixo das cobertas. Pode também ficar de cabeça para baixo, em posição de ioga. Com o livro virado, é claro.
A esta altura dos acontecimentos, a revista ficou jogada entre os variados objetos. Desprezada. Entretanto, o autor de “Se o viajante...” não perde a esperança em seu leitor, no caso , o nosso, e oferece-lhe mais uma sugestiva opção, em tom de lúdica ironia: “manter os pés levantados é condição fundamental para desfrutar a leitura”.E completa, “regule a luz para que ela não lhe canse a vista. Faça isso agora, porque, logo que mergulhar na leitura, não haverá meio de mover-se.
O ato de ler mereceu a atenção de muitos outros escritores/leitores, antigos e contemporâneos. Machado de Assis era mestre na arte de envolver o leitor de seus romances, contos e poemas.
Outro, foi Rilke, o autor de “Carta a um jovem poeta”. Profundo e sensível, como era, escreveu: “Quero viver como se o meu tempo fosse ilimitado”. Quero me
recolher, me retirar das ocupações efêmeras. “Mas ouço vozes, vozes benevolentes, passos que se aproximam e minhas portas se abrem”.
O amor e a leitura se confundem no prazer das posições que o leitor/amante escolhe para ler e para amar. Na forma como a paixão se expressa e alarga o universo do leitor, real ou ficcional, no movimento íntimo e infinito das letras corporificadas e eternizadas pelo corpo e pelo espírito do homem. Gestos de leitura do amor. Ato amoroso de ler. Em todos os casos, a melhor escolha será sempre a do leitor.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

dos acontecimentos
os jornais estão cheios de acontecimentos
mirabolantes manchetes
grandezas e mazelas
povoam páginas bem diagramadas
acidentes e assassinatos
terremotos
super-staras
falências e top-modls desfilam
entre liquidificadores e preservativos
carros importados
receitas culinárias
Fios-dentais e anúncios imobiliários
as palavras nada dizem
além do que dizem
morrem asfixiadas
embrulham dores diárias
carne no açougue
bijuterias na feira popular
outras mídias dão-lhes colorido
velozes e falsas
vorazes verdades
imagens esmaecidas
no mundo em movimento
as palavras se entorpecem
se evaporam
só no poema
a linguagem acontece e sobrevive
os jornais estão cheios de acontecimentos
mirabolantes manchetes
grandezas e mazelas
povoam páginas bem diagramadas
acidentes e assassinatos
terremotos
super-staras
falências e top-modls desfilam
entre liquidificadores e preservativos
carros importados
receitas culinárias
Fios-dentais e anúncios imobiliários
as palavras nada dizem
além do que dizem
morrem asfixiadas
embrulham dores diárias
carne no açougue
bijuterias na feira popular
outras mídias dão-lhes colorido
velozes e falsas
vorazes verdades
imagens esmaecidas
no mundo em movimento
as palavras se entorpecem
se evaporam
só no poema
a linguagem acontece e sobrevive
Caricatura feita por Júnios Heleno
o livro
o que é um livro
algo vivo
quadrado
retilíneo ou torto
substantivo concreto
objeto de luxo
subjetivo
subversivo à solta
espelho convexo
substantivo comum
ou só mais um inseto morto
o livro
o que é o livro
tijolo na estante
cicatriz na manhã gestante
reflexivo estojo
arquivo de espantos
relógio
colibri
polvo
animal mutante
gafanhoto ou corvo
cavalo de tróia
ou cavaleiro andante
seria o velho
invulgar farsante
se gabando de novo
um lago
um cisne
um elefante branco
inventário de nomes
água e fogo
caminho e fonte
seria o livro
magro ou gordo
privado ou coletivo
escravo ou livre
esse bicho sem olho
tem plumagem de vidro
o dinossauro
o rinoceronte
teria asas o livro
objeto passível de lucro
de desejo
de dúvidas
de roubo
de logro
absoluto ou relativo
fechado aberto ou definitivo
é quadrúpede ou bípede
águia ou peixe-boi
esse ovo de ornitorrinco
onde vive o livro
na mala de viagem
na sala de visitas
na biblioteca pública
no quarto de desejos
na paisagem à vista
na geladeira ou na gruta
pode-se ouvir
tocar
tamborilar
sambar
beber
comer um livro
quem escuta no escuro
o vento na planície
no labirinto
é venenoso ou intuitivo
provoca dor
medo ou alívio
cavo escavo cavo
secreto escriba escarafuncho
desesescrevo o livro
cerebral
incompleto e primitivo
de pedra
de barro
de papel
virtual ou de acrílico
definir não me atrevo
interrogar o infinito
o sol aceso enigma
o sonho em alto relevo
é loucura
vezo
é sina
é tudo
isto e aquilo
nada do que disse
teria asas o livro
não sei
desisto
não consigo
o livro o que é o livro
sexta-feira, 26 de janeiro de 2007
Desenho de Heleno Nunes,
criado para a capa do CD
Andejo de Joacir Ornelas.
criado para a capa do CD
Andejo de Joacir Ornelas.
Dom Quixote a cavalo
não vê o chão
nem as patas do animal
mira moinho ns nuvens
dantesca cavalaria
na copa do penhasco se desmancha
tombam árvores
armas inimigas
o fidalgo contra o vento esgrima
corta de espada sombras e arbustos
Don Quixote não se curva
ao peso da armadura vence o visto
ouve som de sinos
a cavalariça elegante aplaude
sente sobre si o laurel da glórias
Dom Quixote não se ri
não se rende ao cruel enigma
destgemido avança
leal e livre cavaleiro se imagina

foto viagem
estou e não estou em minha cidade
fotograficando quando posso
quando passo em preto e branco
meu coração a limpo
quando invisível
me torno em olhar alheio
vejo as casas através da lente
elas não me vêem
vejo as moças através da lente
alegremente passam
carroças carros caminhões
cavalos e arreios
tudo passa sem futuro no presente
trabalhadores de pedra
estes pesam mais em minha mente
não estou e estou em minha cidade
a noite em arcos abre janelas transparentes
quinta-feira, 25 de janeiro de 2007
o que procuras aqui não se enuncia
talvez em campos destruídos
em plantações queimadas pelo ódio
além quem sabe a mais pungente ausência
raízes secas em território de sal
estátuas mortas de gelo derretidas
estranhos assobios
procuras em vão inventas teu percurso
teu poema
o que não necessitas
honra e glória
poder de alquimista
puro ritual de formas
porque insistes em lembranças e memórias
em recordações sem data
Se a estrada se alonga em desvios
sinuosos e restritos
em vão acenas
ao que passa morto já está
tudo em torno guarda geme em sigilo
vestígios de escrituras
todas as sombras estão perdidas
não ti reconhecem mais neste cenário
os signos da inocência
as habitações e os lagos
a solene procissão do gado
sem água
nada em que possa refletir tua própria consciência
uma pedra que seja pedra
um pássaro que seja
um homem que não seja só reflexos
no espantoso pântano da página
no limo da língua
o que procuras aqui te denuncia
nenhum sonho na fronteira subsiste
segunda-feira, 22 de janeiro de 2007
Balada de despedida ou uma
Crônica pela morte desejada
Não raro a cidade se assusta. Leva um choque. Para; Respira fundo, entre estarrecida e judiciosa. E não é para menos, pois, se notícia boa corre, notícia triste, voa. Isto acontece com mais freqüência do que se imagina. Quando, por exemplo, alguma pessoa - criança, jovem, adulto ou idoso, masculino ou feminino, rico ou pobre - despede-se desta vida, inesperadamente. Inexplicavelmente.
Nestes casos extremos, amigos, vizinhos, parentes próximos e distantes manifestam-se. Fazem-se presentes e solidários. A curiosidade e a indiscrição, entretanto, não sossegam o facho. Sussurram. Perguntam. Discutem. Levantam-se hipóteses as mais mirabolantes. Já o morto nada pergunta. Nada mais deseja, além do direito ao abandono e ao sossego. Ao esquecimento do corpo em leito sem amor. Sem compartilhamento.
Diante da morte, banalizada como está e, por isso mesmo, fator de banalização da vida em seus diversos níveis e aspectos, sabemos, é inútil, qualquer palavra. Tudo o que se disser, inclusive neste texto, não passa de conjecturas humana. Tardiamente formuladas. Mesmo assim, insiste-se, insistimos em falas, mesmo sabendo-as vazias de sentido, sem nenhuma repercussão, pelo menos no reino dos mortos.
Entre tantas falas perdidas no silêncio da casa, do velório, do cemitério, algumas podem assumir formas objetivas de questionamentos e preocupações subjetivas, particulares ou coletivas. Excluo, aqui, intencionalmente, questões cujas respostas levam em conta crenças religiosas, sejam elas quais forem. Este é fórum íntimo, sobre o qual não se deve interferir.
Prefiro olhar a questão da “morte desejada” ou mais diretamente, do “suicidio” de um ponto de vista humano, social e político. Poderia acrescentar poético, já que a poesia, em qualquer de suas fases, possui algo de religioso e místico, sem confessar fé, fidelidade, em nenhuma crença religiosa específica. Em nenhuma forma de poder. Este olhar sobre a morte, sobre a morte procurada através do suicídio, espantada como está, poderia perguntar: o que leva um ser humano a cometer tal ato. A caminhar na direção do imponderável e do sem volta? O que estaria ele pensando , sentindo, desejando, questionando, naquele momento da tomada de uma decisão tão radical? Estaria mesmo em condições plenas para pensar e decidir? Que liberdade e autonomia são estas do sujeito contemporâneo que lhe dão o direito de saltar da ponte da vida na contramão do tempo, cortando o fluxo vital que, até há pouco o animava e o fazia sorrir e chorar? Qual o tempo certo par se morrer?Qual o modo mais confortável, menos doloroso.? Quem detém o poder destas escolhas?
Continuaremos, naturalmente, mudos. Poeticamente, a morte tem sido motivo de muitos poemas, ora líricos e reflexivos, ora realistas e contestatórios. Mas, no “pé do toco”, como costumava
dizer minha Avó materna, na veia, não há nenhuma poesia no ato de morrer. Ou será que existe uma estética da morte, como quiseram provar, com a própria morte, alguns artistas e filósofos. Mas também não há nenhuma estética em uma vida sem graça, sem sonhos, sem perspectivas. Diria alguém: quem vive como boi, merece morte bovina. Mas gente não é boi, disto ninguém duvida. Mas este não é o caso;
Socialmente, do pondo de vista da cidade, a casa comum, dos cidadãos – pelo menos é isto o que, em sua essência, deveria ser uma cidade , fica no ar questões igualmente complexas e profundas. Será que a cidade, o conjunto do seres que nela vive - não soube acolher com afetividade a pessoa que partiu? Será que, na maior parte do tempo, não lhe foi indiferente? Teria exigido muito e oferecido pouco? Que valores regem a vida cotidiana da cidade, ciosa por produzir, consumir e se reproduzir de maneira autoritária , acrítica? Será que a cidade se recusa a se transformar para se adequar e atender aos anseios de todos os seus filhos? Estará surda, a cidade ou barulhenta demais para ouvir os lamentos e pedidos de socorro de seus habitantes?
Sejam quais forem as perguntas formuladas, diante deste “gesto brutal” as respostas e ações serão sempre doloridas e pungentes. Quem já sofreu na carne semelhante dor, sabe o que isto significa. À cidade, aos seus cidadãos, habitantes do mundo em transe cabe mais que a lamentação e a perda de um filho. Cabe avaliar sua própria dinâmica, os fatores que operam suas atividades cotidianas – econômicas, políticas, culturais, espirituais, educacionais, esporte, lazer - as opções e oportunidades que ela oferece. Como são compartilhados os espaços públicos e o sonho coletivo da população?
A morte , por suicídio, de um cidadão, de um dos habitantes da cidade, não diz respeito apenas à uma decisão pessoal, súbita, lúcida ou não. Envolve questões éticas, socias e existenciais. Não diz respeito apenas a seus familiares. Como sujeito singular, particular e coletivo, isto é social, a morte, sempre diz respeito a todos nós. Não é um problema só para quem decidiu morrer, como pode sugerir o famigerado individualismo, a competição e o pragmatismo da globalização triunfante. Nem mesmo as cidades de pequeno porte, “interioranas” estão livres deste flagelo contemporâneo, chamado, por muitos, orgulhosamente, de neoliberalismo.
A cidade, que gerou seus filhos, deve dar conta dos motivos que os levam a morrer. Assim, desta forma, tão inesperadamente. Tão desesperadamente. A questão da morte, em certas condições, torna-se um problema social, interdisciplinar, devendo envolver, por exemplo, médicos, psicológicos, sociólogos, pedagogos, educadores, instituições de ensino, empresários, administradores, instituições públicas e privadas. Toda uma rede de configurações e conexões, as mais diversas, honestamente pervertidas. Rígidas, preocupadas apenas com a pulsação do bolso direito. Raramente divertidas. Raramente preocupadas com uma vida de qualidade, vivenciada e compartilhada comunitariamente. A felicidade já não faz parte da nossa geografia urbana. Melhor seria, fosse-nos dado aprender com o jogo da vida.
Cai chuva fina. Fria. Um céu cinzento desaba sobre a cidade. Anoitece.
sábado, 20 de janeiro de 2007
um sentido outro outra verdade
por dentro do ovo ainda
identidade incompleta
pia o pintainho galanteia
profeta sem penas
protesta sobre a dor alheia
meio projeto de gente
galináceo bípede com fome
chora pia imagina
interroga o talvez poeta
o que será por fora
do planeta sem saída
o insurgente mundo
as máscaras do nome
a metáfora máxima da vida
quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

lugar de mulher é na cozinha
repetia minha Avó
a cada momento
entre a Singer tocada à mão
e outros afazeres domésticos
a mesa de jacarandá
a sala de jantar
o armário bordado de porcelanas
este foi presente de casamento
ganhei de meu padrinho
lugar de mulher é na cozinha
ecoava o aforismo
no canto do alpendre
eu tinha só quatorze anos
quando conheci o seu pai
no terreiro da cozinha
o engenho era um carrossel
no pasto da frente
o cavalo relinchava
trepadas na balança
voavam em desejos
os bezerros berravam de fome
o leite apartado
lugar de mulher é na cozinha
escondidas com seus primos
descobrem os primeiros mistérios
a manhã no porão da casa
lugar de mulher é na cozinha
pelos modos da lua
dobrada sobre si mesma
era só de silêncio e desejo
os corações femininos
a coruja branca na porteira do curral
minha Avó no seu quarto de viúva
lugar de mulher é na cozinha
quarta-feira, 17 de janeiro de 2007
segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

será preciso dizer
repetir
perguntar e responder
poema é luta
não dá lucros
luto diário
contra as erosões da vida
todas as dobras e manobras
todos os desmoronamentos
reais
marginais
imaginários
será necessário repetir
poeta é lutador de rua
sem luvas
mãos vazias
sua luta livre luta inglória
todo dia recomeça
insistente jaculatória
não se escreve para nada
o passado passou
para o presente jamais
quem consumirá um poema
se não está exposto na vitrine
se poema não mata fome
não rende juros
não redime
talvez futuro incerto
onde a palavra amora
talvez lugar deserto
onde morre o vocabulário
poesia salto no escuro
decifração de mundos
metáforas vistas por fora
olhos vendados
ponto perdido na memória
ainda é preciso dizer

o desmoronamento desta vez
abusou
virou a terra do avesso
engoliu gente em São Paulo
comeu carros
detonou
virou manchete na Geral
destaque na principal TV do país
o corpo gordo das letras
as imagens quebradas
o enquadramento perfeito
mostram a importância dos estragos
acoberta razões
coisa bacana
sem defeito
mais que Geralcilia quando passa
de sorriso batom
desmoroneando-se
toda se desmanchando de charme
sob a chuva
na Avenida Paulista
Geralcília é linda
muito mais do que Jandira
Olga ou Beatriz
o desmoronamento não
não vejo graça nenhuma
em seus músculos potentes
em seu sorriso sarcástico
é preciso fazer alarde
fazer média com o leitor
denunciar o acidente
chamar a atenção
vender jornal
grita alto o redator impaciente
o desmoronamento foi feio
monumental
e mais a foto do meio
aberta e colorida
completa o diagramador
via ficar sensacional
nisto Geralcília
perde em arrojo e perfeição
não dá pra competir com a mídia
haja coração
desmoronar é fato corriqueiro
faz parte do cardápio
de vários engenheiros
há várias gerações
eu mesmo me desmorono em letras
todos os dias
mais tímidas
é verdade
manchas de sangue no asfalto
na ladeira da página
a mulher do vizinho de frente
nem se compra a Geralcília
em quase tudo é diferente
é boa gente a coitada
a começar pelo nome
difícil de ler e de acreditar
Gerululia
parece trava-línguas
nem vontade dá
de falar
há tempos a honrada senhora
vem se desmoronando
aos poucos
devagar
por partes
inexoravelmente
os peitos de Gerululia
estão caídos
desede seu último carnaval
em 1968
um fevereiro de luto
cabelos compridos cobriam a bunda torta
sem molejos
Gerululia por cima não dá
é pesada
é estrábica e tem a língua presa
faz dó ver Gerúlúlia de sonsa
só não morreu
ainda
pela graça dos produtos de beleza
desmoronar neste pais é moeda corrente
não é privilégio
realmente
você desmorona
ele desmorona
desmoronamos todos
intermitentemente
queiramos ou não
diariamente
a Top-model
o atleta
a primeira dama
o artista
o presidente do hipódromo
desta vez foi dez
dez carros de luxo
ônibus carroça caminhão
motocicleta e carreta
tudo de cima para baixo
foi grave
isto é que foi desmoronamento
diz um curioso insensível
curtindo a festa
a zona
a zona total
o inferno em pessoa
domingo, 14 de janeiro de 2007

desmoronamentos - III
entre nós e os dilúvio vindouros
o governo promete novos desmoronamentos
bem projetados
com impacto ambiental zero
recursos é que não faltam
não faltam devotamentos
a secretária já preparou a agenda
gorda feito Geralúlia
eventos de grandes proporções
maior que show de rock
de música “breganeja”
ou forró universitário
coisa chic
alinhada
alienadíssima
o pau vai comer solto
a mídia do mundo inteiro
com certeza irá cobrir cada detalhe
o acontecimento global
irá fazer o maior carnaval
próximo á vila Paris
à Favela da Rocinha
a vida da população vira inferno
a redação do jornal
por enquanto
está suportando o temporal
o editor nervoso como sempre
grita
entre ossos e destroços
entre mortos e feridos
entre ferros e arames farpados
pouco se perde
ninguém se salva
meninos de deus jogam videogames com anjos da morte
Deus se diverte
ri da fragilidade da ignorância com insoência do Homem
limites
sem véuslimites sem véus
não suma meu amor não suma
não quero ver a sua sombra
seu vulto no final do túnel
não
não suma
quero a casa e o casulo
quero a casca e o sumo
as marcas e os furos
quero as máscaras sem fundo
quero mais que tudo
as jóias e os furtos
quero as rosas e os frutos
os espinhos e perfumes
todos os espelhos escuros
todos os deleites
todos os alfinetes e detalhes
todas as caras e bilhetes
todos os entalhes e enfeites
todos os leitos claros
sem armaduras nem escudos
quero tudo a que tenho direito
dentro e fora da lei
no reino dos homens surdos
dos homens estreitos
como não posso não querer
como a nada somos impunes
quero todos os aromas e abismos
todos os beijos hirtos todos os idiomas
todos os sorrisos
o paraíso
não
não quero
e como eu não me retrato
não me iludoquero todas as artes dramáticaso
invento oculto
contra todas as gramáticas
contra a literatura insossa
contra todos os defuntos
quero todos os templos
as tempestades futuras
quero tudo que pode ser e tocar
com dedos calmos e cegos
quero viver e morrer
os extremos e as espumas
todos os mistérios
todos os livros belos
todos os exemplares amarelos
todos os refugos e reflexos
todas as misturas espúrias
todos os elos
e como tudo é um
e diverso
quero todo o Universo
todas as faces e fases
todas as frases e orações
quero ver Paris
ver poemas e anúncios
andar de ônibus
conhecer os sumérios
ler os muros de Berlim
os murmúrios de Roma
todas as súmulas
fazer América não
prefiro ir ao inferno
e como tudo passa
quero todos os lastros
todas os bichos e pássaros
todos os rios e montes
todas as planícies
todos os mitos e mártires
todos as marés
a Baia de Todos os Santos
todas as plantas
quero tudo da vida sem edição prévia
sem amarguras todas
todas a suas vias de aceso
todas as recessões
todos os excessos de mão dupla
todas as pinturas
e como tudo ultrapassa
a paciência bovina
a ravina a raça a razão
não quero nada de graçanão quero traição
quero o que você imagina
toda a imaginação
não não quero insultos
nem reis e nem sultões
quero os medos e sustos
os semblantes de todos os sertões
todas suas luas
suas evocações
só não tolero ciúmes
e plumas
adoro chorinho e Jazz
adoro blues
boleros e tangos
e como não quero trapaça
jogo limpo e severo
não quero traça no texto
não quero tintas de melnem pretexto em vão
na hora do preloquero asas contra os céus
quero tudo em branco e preto
todas as irregularidades
sinuosas situações
coisas encantadas querotodas as ingratidões
e como não posso querer tudo
estanco de desejo as letras
meus territórios de sede
a jaculatória das águas
a prepotência dos deuses
as leituras dos mares
dos ares
do chão
todas as sagas
quero da vida todos os rumos
e histórias
todos os combates e combato
só quero lutas verbais
todos os ângulos
todos os túmulos
todos iguais
quero da vida todos
todos os ramos humanos
todos os cumes
todos os limites sem véus
não quero amos
quero todos os triângulos
como não posso tudo
nem tudo querer amar
como sou pele e osso
poço deserto e luar
como não posso ir mais longe
como esqueci o radar
não posso querer nem saber
só por mim mesmo voar
como com tudo não posso
a todo o mundo enganar
não posso por tudo em um verso
por tudo a perder
não quero ponto de chegada
não quero me versificar
como não posso escolher
vivo entre a terra e o mar
como não posso
só em mim mesmo morrer
ou em mim nadificar
lanço âncoras
no escuro
sem rédeas
para o sem lugar
não suma meu amor não suma
Xingó é minha amiga.Mora em Ponte Vila,
Distrito de Formiga, Minas Gerais,Brasil.
Distrito de Formiga, Minas Gerais,Brasil.
um homem que bicho estranho
tem pele feito porco
tem penas igual pavão
faz ferramentas
faz contas
faz amor por precisão
é doido de jogar pedras
ama-gama-desama-ama
morre de tédio e tesão
não raro sai a galope
cai do cavalo na cama
é ruim igual cobra
faz banquete
come sobra
usa palitó e gravata
computador
celular
usa porrete e facão
não raro entre em coma
é ladino igual raposa
finge ladra feito cão
faz lixo faz comício
por nada vira ladrão
adora espelho
pipoca
cinema televisão
é esperto igual coelho
inventou o fogo o barulho
a bomba a explosão
jogo de bicho de damas
que bicho estranho é o homem
depois de tanto inventar
a sujeira e o sabão
desinventar seu invento
reinventar a invenção
achou por bem registrar
ele mesmo a criação
por justo achou negar
a luz a voz a razão
e na prisão se trancar
é belo igual demônio
igual anjo pode ser
desenha canta faz novena
vê novela mexicana
faz de besta faz promessa
pra viver mais vive em vão
de asa delta ou sonho
voa de vez em quando
trabalha ajunta rouba e esbanja
come carne tem paixão
bebe muito come canja
mata o desejo com as mãos
tem pés igual tatu
cava buraco no chão
cava sua sepultura
criou o céu o inferno
o casamento a censura
a gaivota e o dragão
botou fogo na floresta
pôs rodas na bicicleta
vai ao velório protesta
rosna ri briga na festa
incendiou o planeta
a terra da promissão
se tem culpas
reza
se tem sede
bebe
se em fome
nem sempre come
se for necessário improvisa
bule bole bate e bale
dá o bote
sabe que nada acontece
pede perdão no cartório
não tem asas também poderia
ser completo mais um Deus
lê escreve faz poesia
diz que viu o que não vê
no lugar de asas e nuvens
preguiça nave navio
tem pensamento avião
faz casa funda cidades
arquiteta faz artes
gravura muro e carvão
mora na rua na mata
mata seu próprio irmão
imagine se o homem
mudasse o nome do não
o nome do que procura
do amor do tempo da chuva
se revertesse o invento
do desencanto da lua
ou invertesse o sentido
da seta do poste da rua
imagine se o homem
fosse só - vazia imaginação
o homem que bicho estranho
tem pele feito porco
tem penas igual pavão
faz ferramentas
faz contas
faz amor por precisão
é doido de jogar pedras
ama-gama-desama-ama
morre de tédio e tesão
não raro sai a galope
cai do cavalo na cama
é ruim igual cobra
faz banquete
come sobra
usa palitó e gravata
computador
celular
usa porrete e facão
não raro entre em coma
é ladino igual raposa
finge ladra feito cão
faz lixo faz comício
por nada vira ladrão
adora espelho
pipoca
cinema televisão
é esperto igual coelho
inventou o fogo o barulho
a bomba a explosão
jogo de bicho de damas
que bicho estranho é o homem
depois de tanto inventar
a sujeira e o sabão
desinventar seu invento
reinventar a invenção
achou por bem registrar
ele mesmo a criação
por justo achou negar
a luz a voz a razão
e na prisão se trancar
é belo igual demônio
igual anjo pode ser
desenha canta faz novena
vê novela mexicana
faz de besta faz promessa
pra viver mais vive em vão
de asa delta ou sonho
voa de vez em quando
trabalha ajunta rouba e esbanja
come carne tem paixão
bebe muito come canja
mata o desejo com as mãos
tem pés igual tatu
cava buraco no chão
cava sua sepultura
criou o céu o inferno
o casamento a censura
a gaivota e o dragão
botou fogo na floresta
pôs rodas na bicicleta
vai ao velório protesta
rosna ri briga na festa
incendiou o planeta
a terra da promissão
se tem culpas
reza
se tem sede
bebe
se em fome
nem sempre come
se for necessário improvisa
bule bole bate e bale
dá o bote
sabe que nada acontece
pede perdão no cartório
não tem asas também poderia
ser completo mais um Deus
lê escreve faz poesia
diz que viu o que não vê
no lugar de asas e nuvens
preguiça nave navio
tem pensamento avião
faz casa funda cidades
arquiteta faz artes
gravura muro e carvão
mora na rua na mata
mata seu próprio irmão
imagine se o homem
mudasse o nome do não
o nome do que procura
do amor do tempo da chuva
se revertesse o invento
do desencanto da lua
ou invertesse o sentido
da seta do poste da rua
imagine se o homem
fosse só - vazia imaginação
o homem que bicho estranho
Assinar:
Postagens (Atom)










