terça-feira, 7 de junho de 2011


o que tem o poema
a dizer
do poema que diz
além de si
mais leve acontecer
o que diz o poma
sobre o poema
que tem a dizer
além do que diz
querer dizer
além do dizer
não dito
extrema forma
livro labirinto
livre plataforma
de ler
fora da lei
fora da grei
o infinito
poema só prazer
só palavras
inscrito ao se tecer
ao vento
na pele
na pedra de granito

o que tem o poema
só poema a si dizer

segunda-feira, 6 de junho de 2011


assim teria falado Górgias
o grego
em tempos atuais
aos dele sob mu itos aspectos
tão semelhantes :

jamais levantam os olhos para o alto
sempre enfiam a cabeça na terra
bestas de pastagens
vangloriam de sua própria insensatez
roçam a língua na grama áspera e seca
comem sem fome
bebem sem sede
gozam sem prazer
esgotam as amenas veredas
e pastagens
em vertigens de ira
lutam uns contra os outros
com unicórneos eletrônicos
títulos honoríficos
e cascos de ferro

a seus olhos vazados pela ganância
seus semblantes são terríveis e amargos
nunca se interrogam
nunca perguntam
nunca sorriem
nunca perdoam
nunca desistem de suas presas

roubam em plena luz do dia
o verdadeiro tesouro
da alegria e da amizade
beijam as faces de Judas
bajulam
rejubilam entre si
com o sofrimento alheio

elegem como inimigos
os espíritos verdadeiros
os manos de coração

matam uns aos outros
por alguns vinténs
falsos dólares furados

tudo aceitam
sem culpa nem piedade
são insensíveis seus sentidos
insaciáveis seus desejos

freqüentam
por isso brindam nos banquetes
transformam a vida em permanente festim
a morte ronda suas cabeças de mármore
cobertas com flores de flandres

adoram adornam a si mesmos
com fitas de cetim
jamais elevam sua alma de pedra
acima das montanhas
jamais olham para o alto

assim falaria
Górgias
em seu nome pronuncio



dialética

claro que a pedra
como tudo se move
a pedra e a água
o seu em torno
a contorno das formas
da lua gorda
sobre as montanhas
imóveis na aparência
da cidade inerte
o pássaro solerte
mesmo quando pousa
feito folha presa no caule
o tronco do arbusto
o pouso mesmo trono
tudo se move e canta
às vezes para sempre
fica mudo no ramo escuro
claro que a pedra
feito a pele do corpo
move-se no túmulo
o túmulo sobre si mesmo
se dobra e se transforma

e por mais bela a forma
a arquitetura dos olhos
há uma triste visão no fundo
de tudo o que não se move
ou se partir resiste

claro que a pedra do reino
não dura para sempre se move

quinta-feira, 26 de maio de 2011


vejo na pedra
através de seu avesso
no seu pelo liso ou espesso
a melodia da água
do que leva
lava a fala
a verdade da pedra suas trevas
da pedra mesma fugidia lesma
do que a ela se agrega
o pássaro liberto
o antílope
o seu antípoda preso
no que na pedra em pedra se transforma
a pedra ela mesma a verdade
sua forma
pela pedra penetro corto
revela o córtex do verbo
a pele da palavra quase pedra
removo todo o excesso dos ossos
os abscessos óbvios
o reflexo dos óculos
entro por dentro de suas entranhas
sombra de pedra em pedra sangra
os olhos a sobrancelha o estômago
o espírito da pedra a palavra quebra
palavra mais que pedra coisa d
de bela face e cores o poema da pedra na encosta da montanha sem, sermões
só a pedra na pedra os olhos os pés as mãos

o poema de pedra em pedra se faz antevisão de tudo na base de pedra
o que alvejo

quarta-feira, 25 de maio de 2011


você quer paz
eu brigo
você me vê
nanico
se você passa
não ligo
se você for
eu fico
eu não sou você
eu lírico

segunda-feira, 23 de maio de 2011

a morte não descansa aos domingos
madruga seu perfil de pedra
afia suas ferramentas
trabalha duro durante a missa
celebra ocultos rituais e predições
dorme depois do almoço
vai ao estádio
não torce pelo mais fraco
não se consente em reflexões
no parque municipal
visita os doentes
penitenciárias e hospícios
vê programas de entretenimento
de gosto duvidoso
engorda seu instinto no sofá da sala
ronca bizarras sonatas
sonha com exóticas paisaqgens
não dirige mais devagar
não se comove com a música
com a miséria
com a indiferença da raça humana
dos condenados a prisão perpétua

aos domingos a morte veste sua roupa de gala
percorre invisível seus caminhos prediletos
olha com desdém os homens nos bares
as mulheres na janela
não repara nas crianças entretidas
com seus brinquedos eletrônicos
nos jovens de sonhos videogames de si mesmos
almoça em silêncio
alheia aos desmando políticos
à às ocorrências policiais
aos eventos familiares

a morte segue à risca
sua agenda de lutos
perpetra crimes hediondos
sempre escapa às condenações
não luta contra as feridas do mundo
não tira férias
licença maternidade
não se aposenta
sente -se feliz
exerce com prazer seu ofício
com absoluta eficiência
é democrática e triste por natureza

a morte não descansa aos domingos
a morte não descansa aos domingos
madruga seu perfil de pedra
afia suas ferramentas
trabalha duro durante a missa
celebra ocultos rituais e predições
dorme depois do almoço
vai ao estádio
não torce pelo mais fraco
não se consente em reflexões
no parque municipal
visita os doentes
penitenciárias e hospícios
vê programas de entretenimento
de gosto duvidoso
engorda seu instinto no sofá da sala
ronca bizarras sonatas
sonha com exóticas paisaqgens
não dirige mais devagar
não se comove com a música
com a miséria
com a indiferença da raça humana
dos condenados a prisão perpétua

aos domingos a morte veste sua roupa de gala
percorre invisível seus caminhos prediletos
olha com desdém os homens nos bares
as mulheres na janela
não repara nas crianças entretidas
com seus brinquedos eletrônicos
nos jovens de sonhos videogames de si mesmos
almoça em silêncio
alheia aos desmando políticos
à às ocorrências policiais
aos eventos familiares

a morte segue à risca
sua agenda de lutos
perpetra crimes hediondos
sempre escapa às condenações
não luta contra as feridas do mundo
não tira férias
licença maternidade
não se aposenta
sente -se feliz
exerce com prazer seu ofício
com absoluta eficiência
é democrática e triste por natureza

a morte não descansa aos domingos

domingo, 22 de maio de 2011


para os suicidas
um balão de ensaio
uma torre de papel
para os poetas
uma asa delta
uma torre de Babel
um papagaio colorido
um rodapé da cor do céu

domingo, 15 de maio de 2011


todos choramos
à caminho de Guantánamo
em Cuba
em direção a Abu Graib
no Iraque
choramos todos
em nome da vida
contra o invasor suicida
contra a opressão do mais forte
mesmo fora do alcance de suas balas
das mãos que dobram os corpos
a alma da pátria sem defesa
choramos e resistimos
com palavras luminosas
pelos que sem destino
caminham para a morte
ou no percurso
se perdem de si mesmos
pelos cegos que obedecem
pelos escravos que servem
pelos sábios que se calam
pelos que se vendem
pelos omissos que seguem
a multidão sem honra
pelos que ateiam fogo
em sua consciência
pelos párias de todos os quadrantes
calvários e hemisférios
lutamos e em nome da paz choramos

quinta-feira, 12 de maio de 2011


nada de novo
sobre a face da terra
desde o início do mundo
o sol absoluto reina
o homem vaga a esmo
erra pelo planeta
em busca de um deus de pedra
cai no abismo da palavra viva
perde-se de si mesmo
vocabulário andarilho
sem som
sem luz ou peso
o poema do futuro se insinua
da palavra nua
no quaro de despejo
contra a vontade do signo
o desejo da milícia
das interfase da lua
a contra-gosto da família
e tudo se reinicia

do ovo da serpente
não nasce o gênio
nem gente
o computador computa
não engendra o sentido
não inventa
não perdoa nem redime
de quem a culpa
se culpado existe
se a voz inculta
impõe o rito
engole o poeta
se a poesia forja o enigma de cada dia
sempre vence a gula da mídia

quarta-feira, 4 de maio de 2011





barco instável
sobre mar revolto
o poema se move
solto no tempo
sem trajeto óbvio
ao sabor do vento
foge à luz dos olhos
som e movimento
a palavra foge

o poema insiste instala
morre remorre nasce
ressurge a cada instante se forma

terça-feira, 3 de maio de 2011


a morte
canto e prenuncio
a branca solidão
o fim da palavra mórbida
vida sem saída
poema sem solução

sábado, 30 de abril de 2011


o céu de abril é azul
sem nuvens
navios de mesmo tom
movem em silêncio
atravessam o mar
de montanhas comidas pelo tempo
pelo vento da manhã
pelos dentes da máquina sem alma

um bando de pombos brancos
rondam seus mastros decadentes
entre o pânico das gaivotas imaginárias

o céu de abril tinge meus olhos em ruínas

terça-feira, 26 de abril de 2011


o que sabes de ti
do que vive ao teu redor
o que sabes da água
da pedra
do peixe que mora
entre a pedra e a água
o que sabes de teu mundo interior
dos que te ensinam
questionam
e te completam

o que sabes da vida
da dor alheia
além de tua ilha
da morte do boi no açougue
da fome da matilha
do que no escuro da manhã
campeia à beira de tua porta
e te humilha

menos ainda saberás do amor
se contra todas as circunstâncias
não fores capaz de amar

segunda-feira, 18 de abril de 2011


o que perturba no amor
não é amor
é dele nada sabermos
porque o verdadeiro amor
não exige provas
nem provocações
não exige fé do coração incompleto
amor que verdadeiramente ama
escapa ao toque dos dedos
ao sabor dos lábios
às lágrimas
aos vários subterfúgios do corpo

as perturbações do amor
nem sempre cegam
podem abrir caminhos invisíveis
no úmido areal da carne
acender estrelas na solidão da noite

não te perturbes tanto
quando o amor chegar

porque desejas a morte
quando as coisas não vão bem para ti
e a vida te parece pesada
mais que um rochedo preso
no fundo do mar
porque foges dela
como o diabo foge da cruz
se estás feliz em tua inconsciência
deixa que a vida se cumpra
em alternâncias de alegria
e de tristezas
não apresse o barco
da indesejada das gentes
não demora muito e não mais verás
a lua branca
na tardes luminosas
porque tudo é tão breve
que nada me parece urgente

não apresses o barco de tua existên

domingo, 17 de abril de 2011


vive conforme aquilo que ensinas
conforme a escrita de tua vida
ignora os que te julgam míope
ou sonhador
os que sob o manto das instituições
sob diplomas clonados na internet
comprados a peso de outro
escondem a ignorância e a covardia
ou em nome de um Deus inócuo
insinuam tua interdição
a ironia nem sempre nasce
do saber autêntico
escreve segundo o ritmo da vida
o poema necessário
não te humilha
não odeias
não ofendas
não finjas
tudo o que te acontece move teu aprendizado
viva conforme o que ensinas

sábado, 16 de abril de 2011


não tenhas medo
das coisas que estão por vir
o que sabes do futuro
do que irá te acontecer
daqui a um segundo
da flor que perfuma
teu cofre de segredos

viva o presente com integridade
inteiro no teu sentir
e nada te acontecerá
que não serás capaz de usufruir
ou suportar
seja fortuna merecida
seja a miséria extrema
cujas pontas se tocam
e no tempo se completam

eis a tua felicidade
receber sem anseios
o que em sigilo a vida te oferece

domingo, 13 de fevereiro de 2011


só ha felicidade
na inconsciência diante do mundo
no fluxo natural da e vida
feito rio e vento se deixam levar
feito levam o moinho
pelo movimento natural do tempo
feito o tigre e o porco espinho
busca pela fome o alimento

no mais tudo é ser sozinho

domingo, 6 de fevereiro de 2011


sem a poesia
não haveria nada
caos absoluto
estranha solidão
não haveria luz
nem teagonia
no tempo sem memória
a palavra amor não resistiria
ao vazio cósmico
ao egoísmo dos homens
sem a poesia
seriam absurdos
os dias da criação

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011


na base a pedra
a pedra de toque
o tempo só
metamorfose
de tudo em tudo
verbo de pedra
de água e sol
sem ornamento
sem apanágio
a pedra só sua voz
pelo atrito do vento
se ergue

domingo, 30 de janeiro de 2011


o fulgor da palavra
cega teus sentidos
todo o cuidado é pouco
não há lucidez no entusiasmo
no ritmo asmático do poema
no coração ferido

deia que o difícil rigor
do ofício
seja teu ânimo e teu limite

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011


letra a letra
o poema do futuro
ao fluxo da leitura
se oferece
mal você se curva
sobre a palavra
nuvem
o poema desaparece

o mundo muito
eu pouco
o tempo curto
o homem louco
o invento mudo
o novo choco

depois do porre etílico
o eu lírico
regurgita
vomita a fala
se agia faz discurso
de gala
cambaleia
quebra a cabeça
na sarjeta
briga com o outro
o poeta empírico
na anti-sala literária
mal se olham
os dois
se desenrolam pela escada
da palavra a baixo
a poesia ri do ritual
do escracho
exonera a metáfora
dispensa cosméticos

prefere
o sentido lato
o silêncio meta-científico
o dissenso
o desde sempre
artefato poético

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011


o sapo a lesma
a casca da ostra
toda a miudeza
o sol pela fresta
o gafanhoto
o graveto
o risco o rabisco
a escrita]
lamparina acesa
o erro
o vidro vazio
no fundo da gaveta
o que da mesa
do mundo resta
a poesia solta
a língua tesa
o poema triste
em dia de festa

tudo isto me interessa

após a incessante multiplicação
do verbo
das indefinitivas constelações
de signos
ao que por dentro se mutila
ou acrescenta
prefiro
o mínimo não dito
o que em silêncio reverbera

por um segundo
esqueço
todos
todos os ruídos do mundo

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011


o conteúdo não é tudo
nem tudo forma lúcida
nem tudo lúdico
nem tudo ornato
nada inato surge
a luz ilude o olhar do crepúsculo
o molusco fusco do discurso
muda conforme a voz se curva
conforme o véu da chuva ácida
conforme tudo a tudo se dá
se alude
dúbio salto sem alma
sombra sem fundo
sangue e chumbo
suga
no túnel da linguagem
tudo principia
o fogo na pira
no tubo de ensaio
nada se salva
tudo vira poesia

domingo, 23 de janeiro de 2011


tudo
no sertão acontece
tudo de rio
desce
sem margem
á vista
sertão de sertão se tece
Irradia
o incerto sol
dúbia travessia

sábado, 22 de janeiro de 2011


porque desejas a eternidade
se nada sabes
de teu passado imemorial
se menos ainda
conheces teu presente
sem significado

o que há na eternidade
senão a saudade dos dias
finitos
e a melancolia sem fim
a certeza de que nada mais acontecerá

porque ainda desejas a eternidade

terça-feira, 18 de janeiro de 2011



ao olho tudo é dardo
o referente deserto
o já descrito na pele
o poema do poente
o verso delirante
o amor ao dente
o pomar a ponte
o poeta mais de perto
ilude o sapo
o sábio ignorante
elide e corta
edita o olho do outro
sempre de olhar distante
no outro olho olha
olha olho por olho
dentre por dente
pela palavra luta
escolhe escreve
escova a verve
traduz de pedra
a luz
como quem talvez
namora
na morte
o já lá fora
o olhar caolho
entorta o objeto
o encalhe
encobre a metáora
o dialeto pobre
do editor classista
do poeta ex-nobre
tudo o que produz
de novo nasce
no cardápio da moda
olho de peixe morto
molho de inseto
piolho de cobra
o olho da placa
luminoso morde
a crosta
a casta cartilagem
da ostra
o mundo pela palavra se produz
pelo avesso da linguagem
move

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011


a tragédia do Rio
dita de outra forma


água seu curso
de enigmas e desconstrução
seu discurso livre de sintaxe
de complementos
segue só água a morte
e suas desconexas
conotações
segue só água
a mídia cega
no útero das nuvens
do vento sem adjetivos
segue só água
o mito do dilúvio
a rebeldia dos anjos
a queda dos montes
o que de água se arrasta
a terra a mata
floresta e casas
cavalo e ponte
nem se salva
na arca
segue só morte
de pedra e pânico
a água do batismo
estranha fonte
do sótão da palavra chuva
segue só lama
a morte sem luvas
só água de antes
só lâmina e mácula
arame e magma
a máscula mortalha
o bruto abutre de alivião
segue só água por onde
sua língua alcança
do mundo o coração
só água onde antes bebia
não bebe mais no espelho
o homem
a onça
água e pedra de irmandade
se imantam
lixo e diamante
se dividem em prantos
sege só água
tinge de sangue o horizonte
só água em cachos
em cântaros
de mapas sem nome
segue que água bebe
mesmo sem fome
come da cidade a alma
o cerne
segue de água a língua
se multiplica em signos
e ditames
em sigilos
os dilemas
os reclames
segue só água
seca do homem
o desejo
o orgulho
a infâmia
segue só água
penetra
perfura
afaga
afoga
sufoca avança
perpetra a hecatombe
segue só água a linguagem da chuva na montanha
nem santa
nem satânica
sua semântica dissonante
segue só água sertânica
de janeiro a março
sem bossa ou máscara
água só marcha
de sombras sonâmbulas
na direção do Atlântico

só água seu discurso irônico
a arquitetura do idioma
não a imagem da água
a água mesma
sua viagem anômala
seu discurso multiforme
polifônico
ninguém escuta
o barulho da chuva
o ritmo da musica
o embrólio de tudo
o rumor das sombras
o discurso d’água
pela água se dissolve
arrebenta a língua
por dentro de si mesmo
o vasto dicionário de abismos
a cidade da palavra
tomba

domingo, 16 de janeiro de 2011


nem toda leitura
fecunda a consciência
lugar secreto
ler conforme seja
a biblioteca
o gosto da cereja
entorta os olhos
amassa a bunda
encobre o objeto
melhor voar
feito mosca vagabunda
deixar a vista
viajar ilesa pela janela
da paisagem aberta sobre a mesa

sábado, 15 de janeiro de 2011



o discurso das águas


o mundo todo quer entender o discurso das águas
o curso de seu vocabulário rio
estreito dicionário
em sua fúria de destrutivos pronunciamentos
os hermeneutas procuram o sentido oculto na lama
nas dores de Jó
nas ruínas do jardim do Édem
os semióticos analisam vestígios
o que do litígio urbano sobreviveu
os arqueólogos dialogam
com os bombeiros em tristes escavacações
de sentidos e sentimentos
os políticos proclamam
prometem
se acusam
denunciam falhas do sistema
falsas interpretações
eternos dilemas
adiam verbas
conjugam verbos de intransitivo amor
de pretéritas emergências e decisões
os comunicadores usam e abusam
da sede de verdade
dos homens incrédulos
os marqueteiros de plantão
faturam com a audiência
e novas campanhas pluviométricas
os homens de negócio negociam novas situações
calculam os pontos e as vírgulas
lêem como sabem e querem as ondulações das letras
nas vertentes devastadas
assassinam novos contratos e convênios
de conveniência mútua
os homens públicos ficam mais públicos
choram lágrimas de crocodilo
em nome do bem comum
os místicos fazem mágicas
acendem velas
queimam incenso para os deuses atléticos
inacessíveis e seguros
em seus reinos míticos
guarnecidos por anjos
por tropas de elite
as companhias de seguro
ficam de olho no futuro ameaçado
enquanto isso as águas caem do céu
dos infernos das nuvens
dos telhados
assustam homens e bichos
aves e pedras
plantas e animais domésticos
arrebentam muros
furam paredes
derrubam casas
invadem igrejas
granjas
fábricas de brinquedos
templos e estádios

a temporada de chuvas continua
profetiza a moça do tempo
o serviço de meteorologia
no seu afã de dizer
as águas engolem escolas e bibliotecas
out-doors e placas luminosas
comem estradas e sinais de transito
espalham o vento do medo
sua lição de humildade

o livro da natureza ao se deixa ler
pela razão humana
que a si mesma se arrasa

o discurso das águas se reproduz
em filetes e simulacros
em risos e tempestades de sentidos
saltam das páginas infinitas do universo
rugem rangem rasgam vomitam água e fogo
a ira de Netuno que tudo ununda
rolam com os cadáveres dos homens e das coisas
pelas encostas
desfilam com os mortos pelos morros amassados
pela ruas e avenidas mascaradas
ruflam tambores
entoam marchas fúnebres
pelos becos e esgotos
pelos canais todos da convencional incomunicação

as bocas anônimas cantam hinos
solidários
juntas se iluminam

as águas e sua linguagem insípida
inodora encantadora polissemia de enigmas
com seu discurso indecifrável
tudo liquida
tudo esmaga com sua força natural
sem regime
sem lei

nada estanca o sofrimento
o silêncio do Planeta sonâmbulo
diante de tantas palavras e idiomas

o mundo todo quer entender
o grito solitário
o discurso das águas sem sono

............................

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011


o urubu não precisa de poesia
nem o tatu de terra macia
a cotovia canta sua própria melodia

somente o homem necessita da canção
para viver suportar seu dia a dia

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011


para este poeminha fim de tarde
aproveito pingos de chuva da vidraça
dejetos de pássaros
de gorjeios no passeio público
retalhos de uz no lusco-fusco
sobremontanhas
tudo o que sobreviveu na cidade sem alma

terça-feira, 4 de janeiro de 2011


já não me basta fazer silêncio
há muitas vozes no deserto
Já não me basta ficar quieto
há muito movimento
no universo
solidão é tudo o que almejo
não a solidão do desejo
da ausência alheia
no fundo dos espelhos
falo da profunda solidão
da maior de todas

a que talvez
nenhum homem alcançará
a que nunca conquistarei

domingo, 2 de janeiro de 2011


escrevo e assino
escrevo contra a desesperança
contra tudo o que sobre vários estilos
e desculpas
me quer escravo
a cada manhã me assassina

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010


A literatura ou a vida?
Eis a questão!
Prefiro a literatura ,
Já que a vida é ficção.

sê simples
no que recebes a cada manhã
no que perdes ao anoitecer
entre a vida e a morte de cada estrela
não há hiato
na verdade
o sono e a vigília se confundem
não te pertencem
não há motivos para regozijos
nem para a tristeza

sê simples para que a vida refloresça

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010


o poema deve ser
curto e grosso
sintético
diz o crítico de mau humor
de preferência
só osso
ensina o professor
deve ser inofensivo e neutro
menor que ameba
na medida certa
do cérebro do leitor
reitera o sintomático editor

terça-feira, 28 de dezembro de 2010



porque desejas o domínio absoluto
éS capaz das piores coisas
podes trair com o mesmo sorriso com que amas
podes roubar
com o mesmo cinismo
com que alimentas o mendigo à tua porta
podes matar
com a mesma alegria
com que comemoras teu aniversário
a chegada do Ano Novo
porque desejas o domínio absoluto
não saberás a diferença entre amor e ódio
entre paz e omissão
entre justiça e honra
nunca te bastará o necessário
serás para sempre
inimigo de teus irmãos
de tudo e de todos
porque desejas o domínio absoluto
vives em desassossego
estás condenado a vagar pela terra queimada
sem deixar rastros nem lástimas
serás bruto mais que a pedra do calvário
mais que o animal selvagem
nunca serás nada
nem deus nem homem
nem a cascavel serás
porque desejas o domínio absoluto

sábado, 25 de dezembro de 2010


não te esqueças nunca destas palavras
a água não pode mais do que a água
nem o fogo mais do que o fogo
nem a pedra mais do que a pedra
Deus não pode mais do que deus
nem tu mais do que o que tu és
pó e água
ar e fogo
tudo no universo se curva ao peso
do tempo
à permanente sucessão da existência
nada deve se curvar a teus pés

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010


falo por mim
mesmo quando calo
porque povo
é gado marcado
nao tem preço
não tem cheiro
não tem voz
não tem mercado
povo não come
não bebe
não ouve
não toca violino
não se toca
não inala
povo não é velho
nem menino
na vale um tostão furado
povo é abacaxi e pepino
povo é palavra abstrata
cachaça barata
nó sem gravata
botequim com batata
caranguejo na lata
cumpre e não trata
se assusta à toa
açude sem água
é águia mas não voa
não chove nem molha
não reage nem a tapa
aos desmandos da coroa
povo é esgoto no ralo
pedra no sapato
calcanhar com calo
poleiro de pato
perfume barato
suco
saco de pancada
sucata
não ata nem desata
não canta de galo
não levanta cedo
não levanta a crista
não olha para o alto
povo é povo
por falta de opção
por falta de palavra melhor para saudar o charlatão
pouco mais que menos
carta fora do baralho
a palavra povo
fede a alho
olho por olho
povo é encalhe
não tem boca
nem agasalho
é quebra galho
gargalo e oca
povo não tem tato
não tem trato
não tem retrato
é sempre retardatário
povo não é justo
nem canalha
não é judas
não ajuda
não atrapalha
vive como pode
como agüenta
come pimenta de bode
como permite a elite
em nome do povo
muito crime se comete
mais subtrai
quanto mais promete
em nome do povo
a revolução
a farsa

o fanfarrão sem calça
no caixão sem alça
em nome do povo
nada de novo na rede
nem peixe nem polvo
nem cerca nem parede
a palavra povo aumenta
conforme a ocasião
o que em nome do povo
o rei supostamente inventa
em nome do povo
há quem fala grosso
engrossa o bigode
engorda o bode
torce o pescoço
vira porco
por mais que se sacode
o coqueiro atorto
o coco não cai
não morre
o povo
Brasil
é um vivo-morto
é festa de pagode
Jesus Cristo no Horto
não é pobre nem lorde
é boi que não se lambe todo
nem nobre nem gentil
povo é povo
ovo é ovo
véu é véu
vil é vil
povo é uma ova
depois do voto
toma dorIl

penso por mim
porque o povo
por impaciência
por incompetência
por conveniência
por conivência
sumariamente
democraticamente
subtamente
sumiu
João evangelista rodrigues

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010


que tal
um poeminha descartável
para seu Natal
sem sentimento real
sem pensamento
porque pensar
no final do ano
faz mal para o estômago
não é saudável
que tal
um poemiha normal
com amor bem comportado
e agenda sexual
um poeminha
nada sentimental
com casa e jardim
café da manhã e jornal
um empreguinho óbvio
um automóvel invejável
uma esposa elegane
um gorda conta bancária
uma passagem de avião

um poeminha idiota
com botas na janela
com árvore de metal
com bolas coloridas
falsos frutos de vidro
que tal
um poeminha beleza
com mesa farta
taças de cristal
com vinho importado
castanha do pará
peito de peru e pernil
e sonhos defumados
que tal
um poeminha caótico
católico por convicção
hipócrita e fundamental
que tal
um poeminha erótico
com alta titulação
com rara erudição
com baixa radiatividade
com motivo oriental

que tal
um poeminha burocrático
democrático
simpático
sem preconceito
sem poluição


um poeminha frugal
para um Brasil desigual
para sua vidinha banal
para sua vizinha animal
para o moleque do sinal
para o gestor universal

que tal
um cartãozinho indecente
simplesmente.com.
Feiz Natal

elimina de ti
tudo o que de ti
não faz parte
o amor que não suportas
a arte que não ilumina
o orgulho eu ti humilha
a ciência que não floresce
tudo o que não és
e teimas em ser
joga ao vento
tuas palavras ociosas
tuas metáforas abstratas
teus pertences sem coração
às feras
as cifras
tuas vestes de gala
tua ansiedade
tua fé sem aura
tuas fezes
aos ladrões
tudo o que tens
e não te pertence

seja apenas o que podes ser
no tempo sem núpcias
sem saudades
sem espera
sem perfume

elimina de ti o que te elide
e em silencio dilacera

sábado, 11 de dezembro de 2010



o afundador de navios
vive em palácios submersos
alimenta-se da escuridão das almas
de amizade de peixes carnívoros
seu corpo é uma carcaça de ferros velhos
turbinas emperradas e painéis em pane
de vez em quando ressuscita do coração
de um náufrago

para matar de submarinos desejos
entre um e outro afundamento de navios
lê um livro de poemas
montado no vento

o afundador de navios já se cansou das praias
das garrafas vazias
dos sacos de plásticos das
camisinhas e seringas descartáveis
da alegre hipocrisia dos turistas terrestres
das turvas tempestades humanas

agora sonha com a noite em que um mar de fogo
engula todo o continente como um dragão
invisível
devore a vida no planeta enfurecido

o afundador de navios dorme sobre túmulos de água

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010


para onde pensas que estás indo
quando circulas às tontas pela casa
pelas ruas s da cidade
quando avanças o sinal
quando furas a fila do caixa
no supermercado
quando te fechas por dentro
quando te embriagas de metafísicas
quando arrependes de teus pecados
quando devoras sem mastigar
um livro de poemas
de boas maneiras
de auto ajuda
quando comes sozinho
tua ração diária de tristeza

para e pensa
para onde estais indo neste instante
de chuva noturna e insistente
no fundo sabes que tua busca vã
vazia de sentido

é para a morte que tu diriges a cada passo
a cada sopro do desejo
de teu pensamento a caminho do silêncio
a cada movimento de teu espírito sem aconchego

não te perturbes
todos os caminhos caminham em direção à morte

para onde pensas que estás indo
quando circulas às tontas pela casa
pelas ruas s da cidade
quando avanças o sinal
quando furas a fila do caixa
no supermercado
quando te fechas por dentro
quando te embriagas de metafísicas
quando arrependes de teus pecados
quando devoras sem mastigar
um livro de poemas
de boas maneiras
de auto ajuda
quando comes sozinho
tua ração diária de tristeza

para e pensa
para onde estais indo neste instante
de chuva noturna e insistente
no fundo sabes que tua busca vã
vazia de sentido

é para a morte que tu diriges a cada passo
a cada sopro do desejo
de teu pensamento a caminho do silêncio
a cada movimento de teu espírito sem aconchego

não te perturbes
todos os caminhos caminham em direção à morte